terça-feira, 12 de julho de 2011

Experimentação com uma haste de veado (Cervus elaphus) e lascas em quartzito

Introdução

O seguinte procedimento experimental visou a compreensão do processo tecnológico de corte de hastes de cervídeos (Imagem 1) com lascas em quartzito e a detecção dos macro-traços eventualmente visíveis nos gumes das lascas utilizadas. Além disso, proporcionou a ampliação da colecção de referência de lascas experimentais com vestígios de utilização, tendo-se obtido cinco lascas com vários gumes utilizados, associados a tempos de uso diferentes.
Imagem 1: Haste de veado (Cervus elaphus), comprimento 46 cm.

Descrição da experiência.

Antes do começo do trabalho efectivo, algumas lascas experimentais foram obtidas através de uma actividade de lascamento realizada por Pedro Cura (Imagem 2). A matéria prima constituiu-se por seixos fluviais em quartzito, recolhidos acerca da localidade de Santa Cita (Tomar, Portugal). Essa escolha foi feita devido ao fato de que a colecção lítica proveniente do sítio arqueológico de Santa Cita encontra-se actualmente em estudo, visando-se então, em um momento futuro, a possível comparação dos dados traceológicos destas peças experimentais com as peças arqueológicas da referida colecção.


Imagem 2: Actividade experimental de lascamento.

A intenção principal do procedimento foi o corte das extremidades da haste para a obtenção de quatro pressionadores e um percutor brando (a extremidade proximal).Foram então escolhidas cinco lascas em quartzito (duas corticais e três não corticais), que apresentavam gumes aptos para a actividade de corte (ângulo agudo e delineação sagital linear) e boa preensão (manual).
A acção realizou-se, na totalidade dos casos, relacionada com um movimento bidirecional e com um ângulo de contacto com o material trabalhado de cerca 80-90° (Imagem 3).

Imagem 3: Acção de corte da haste de veado (corte central para obter um percutor brando)

Foram fotografados os gumes utilizados a cada cinco minutos, com o objectivo de se obter um controle do processo de modificação dos mesmos durante a actividade e para que pudéssemos dispor, então, de uma noção a posteriori da modificação macroscópica (Imagens 4-5).


Imagem 4: Uma das lascas (ss_2) utilizada no trabalho experimental (exemplo da modificação do gume direito). Nota-se na última fotografia que o gume foi retocado.

Imagem 5: Lasca ss_4: modificação do gume distal.

Observando as imagens 4 e 5, pode-se perceber a incidência das modificações a nível macroscópico. No primeiro caso (Lasca ss_2), tratando-se de um gume bastante rectilíneo, com um ângulo não excessivamente agudo (40°), não foi possível reconhecer modificações muito profundas que alterassem visivelmente a morfologia inicial do gume utilizado. Pelo contrario, considerando a lasca ss_4 (Imagem 5), que mostrava um gume distal convexo com um ângulo da zona activa de 25 °, as modificações foram bem visíveis, compreendendo um micro-lascamento bem profundo no começo, arredondamento da margem lateral direita (visão da face dorsal), desgaste muito profundo na zona mais frágil do gume (lateral esquerda, onde apresentava-se uma retirada do córtex ocorrida na altura do talhe) e consequente alisamento final do restante do gume.


Imagem 6: Lascas ss_1 e ss_5, antes e depois da utilização.

Na Imagem 6, nota-se um micro-lascamento muito visível em relação ao gume direito proximal da lasca ss_1 e o gume direito distal da lasca cortical ss_5. Nestes casos, os ângulos de partida eram respectivamente de 28 e 30°. Os micro-lascamentos inicias levaram às modificações na morfologia dos gumes, até a uma regularização obtida por um arredondamento dos mesmos de modo que não puderam ser considerados mais funcionais.


Imagem 7: Gume lateral esquerdo da lasca ss_7 antes e depois da utilização (parte distal em cima, utilizada por 35 min, parte proximal, utilizada por 20 min).

A imagem 7 monstra o gume esquerdo da lasca ss_7, a qual foi utilizada para trabalhar a hasta no seu estado molhado. Por isso, e considerando também a quantidade reduzida do tempo em que o gume sofreu o contacto com o material orgânico, não foram constatadas modificações evidentes na morfologia dos gumes. Aconteceram, entretanto, marginais esquirolamentos, que deixaram o gume mais regular.

Como já foi dito antes, a haste foi trabalhada, também, após ter sido humedecida em água durante 107 horas, com a finalidade de que pudéssemos perceber as possíveis diferenças em relação à condição normal (seco) de trabalho.

Quatro lascas entraram em contacto com a haste humedecida (para efectuar os últimos três cortes, 3,4,5 Imagem 8), controlando-se o tempo relacionado à execução do trabalho e tendo-se verificado uma significativa diminuição do tempo necessário para a realização dos cortes pretendidos (Tab. 1).

Imagem 8: 1, 2, 4, 5: pressionadores; 3, percutor.






















PORÇÃO DA HASTE

ESTADO

LARGURA

cm

TEMPO

min

PUNTA N. 1

Seco

1,5

90

PUNTA N. 2

Seco

3,6

180

TAGLIO N. 3

Molhado

2,3

95

PUNTA N. 4

Molhado

1

35

PUNTA N. 5

Molhado

1,8

20









Tab. 1: Corte efectuado (ver a Imagem 5), estado da haste, largura da extremidade cortada e tempo necessário para terminar o trabalho.

Tendo em conta a largura das porções que foram extraídas e o relativo estado da haste, tornou-se clara a efectiva vantagem em trabalhar esta em seu estado húmido.

Discussão

A actividade aqui descrita visou, principalmente, à ampliação da colecção de referência de lascas experimentais do Laboratório de Quaternário e Indústrias Líticas. A vantagem de terem sido obtidos gumes que foram utilizados em tempos diferentes (de 10 minutos até 110 minutos) encontra-se no fato de que futuramente será possível analisar microscopicamente a formação dos traços de uso no trabalho com matérias duras animais (haste) nas lascas em quartzito.

Além disso, uma possível ampliação deste trabalho será constituída pela repetição da mesma actividade utilizando diferentes matérias primas (sílex e quartzo) e pela comparação dos traços de utilização que irão se formar.

ANTONELLA PEDERGNANA

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Um site a revisitar

O site Laboratorio di archeologia sperimental tem novos conteúdos, bem como o respectivo canal youtube, cuja visita aconselhamos!


quarta-feira, 6 de julho de 2011

Experimentação sobre Alterações pós-deposicionais em contextos fluviais

O estudo de indústrias líticas provenientes de depósitos fluviais não se pode fazer sem tentarmos compreender o mais possível os processos relacionados com o transporte, transformação e deposição dos artefactos nos leitos dos rios.

Estes processos são tanto mais importantes quando tentamos uma análise minuciosa da alteração das margens das peças. Nesse momento e quando estas não correspondem aos retoques cuja descrição e morfologia está bem convencionada (porventura demais e em desadequação com indústrias de outras matérias primas que não o sílex, mas isso é outra discussão), há toda uma série de questões que se colocam e vários caminhos e metodologias para intentar respostas. Alguns passam pela arqueologia experimental, não só pela manufactura e utilização de artefactos semelhantes, mas também pela tentativa de reproduzir em laboratório ou em ambiente fluvial actual aas diferentes acções, e respectivas consequências, implicadas no transporte, deposição e erosão fluvial.


Exemplos de alteração das margens após transporte no âmbito do projecto experimental de Afon Ystwyth (retirado de Hosfield, R.T., Chambers, J.C., 2003. Flake modifications during fluvial transportation: three cautionary tales. Lithics 24, 57–65.

Para quem está interessado aqui fica uma lista de bibliografia ( a negrito está o que não tenho, se alguém tiver agradeço):

Chambers, J.C., 2003. Like a rolling stone? the identification of fluvial transportation damage signatures on secondary context bifaces. Lithics 24, 66–77.

Grosman, L., Sharon, G, Talia Goldman-Neuman, T., Oded Smikt, O., Smilansky, U. (2011) Studying post depositional damage on Acheulian bifaces using 3-D scanning, Journal of Human Evolution, Volume: 60, Issue: 4, Publisher: Elsevier Ltd, Pages: 398-406

Hosfield, R.T. & Chambers, J.C. 2002. Processes and Experiences — Experimental Archaeology on a River Floodplain. In M.G. Macklin, P.A. Brewer & T.J. Coulthard (eds.) River Systems and Environmental Change in Wales: Field Guide: 32–39. Aberystwyth: British Geomorphological Research Group.

Hosfield, R.T. and Chambers, J.C. (2005) River gravels and flakes: new experiments in site formation, stone tool transportation and transformation. In: Fansa, M. (ed.) Experimentelle Archäologie in Europa, Bilanz 2004. Isensee Verlag, Oldenburg, pp. 57-74.

Hosfield, R.T. & Chambers, J.C. 2004. Experimental Archaeology on the Afon Ystwyth, Wales, UK. Antiquity 78

Hosfield, R.T The Afon Ystwyth Experiment Archaeology Project, http://www.personal.rdg.ac.uk/~sgs04rh/AfonYstwyth/Home.htm, Publicação em linha consultada no dia 6 de Julho de 2011

Hosfield, R.T., Chambers, J.C., 2003. Flake modifications during fluvial transportation: three cautionary tales. Lithics 24, 57–65.

Hosfield, R.T., Chambers, J.C., Macklin, M.G., Brewer, P., Sear, D., 2000. Interpreting secondary context sites: a role for experimental archaeology. Lithics 21, 29–35.

Isaac, G.L. 1989. Towards the interpretation of occupation debris: some experiments and observations. In: B. Isaac (ed.), The Archaeology of Human Origins: Papers by Glynn Isaac. Cambridge: Cambridge University Press. pp 191- 205.

Lewin, J., Brewre, P.A., 2002. Laboratory simulation of clast abrasion. Earth Surf. Proc. Land 27, 145–164.

Peacock, E., 1991. Distinguishing between Artifacts and Geofacts: a test case from eastern England. J. Field Archaeol. 18, 345–361.

PETRAGLIA, M.D.; NASH, D.T. (1987); The impact of fluvial processes on experimental sites. Natural Formation Processes and the Archaeological Record. (D.T. Nash y M.D. Petraglia, eds.). BAR International Series 352, 108-130.

ScHiCK, K.D. (1984): Processes of Palaeoiithic Site Formation: Na Experimental Study. Tesis doctoral, University of California, Berkeley, Ann Harbor, University Microfilms International.

ScHicK, K.D. (1987): Experimentally-derived entena for assesing hydrologic disturbance of archaeological sites. Natural Formation Processes and the Arcaheological Record. (D.T. Nash y M.D. Petraglia, eds.). BAR International Series 352, 86-107.

de la Torre, I (2001) El impacto de los procesos fluviales en la formación de los yacimientos arqueológicos pleistocenos al aire libre: pautas de análisis experimental. Espacio, Tiempo y Forma, Serie I , 14 13 – 45

SARA CURA

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Modificações de superfícies ósseas, uma “experiência” de consumo com Canis familiaris. II – marcas de dentes.

Introdução

No post intitulado "Modificações de superfícies ósseas, uma 'experiência' de consumo com Canis familiaris. I – planos de fractura" (17/05/2011), procedeu-se à análise dos planos de fractura (e integridade) de vários ossos longos de ovino-caprino submetidos à acção de um Canis familiaris. Desta feita são apresentados os resultados sumários da análise das marcas de dentes encontradas nesses mesmos elementos.

Metodologia

Os elementos ósseos foram analisados com forte luz incidente e uma lupa de mão (4x). Registaram-se os indicadores tafonómicos, nomeadamente as marcas de dentes, segundo o seu número, localização (face, porção), características métricas e tipologia, i.e. mordiscos, perfurações, sulcos e depressões. Quando possível, as marcas de dentes foram medidas com um paquímetro digital (Lux).

Resultados

FémurD: uma perfuração em plano de fractura e vários sulcos, alguns dos quais imensuráveis. A esfoliação da superfície óssea é ténue e os sulcos passíveis de ser medidos (n=7) oscilam entre 9.47x1,47mm e 3.15x0.91 mm;

UlnaE: forte esfoliação da superfície óssea associada ao consumo da epífise proximal;

RádioE: uma lasca cortical ainda presa e algumas esfoliações, sobretudo associadas a mordiscos e sulcos. Foi possível medir 3 mordiscos (2.74x1.12mm, 1.94x1.25mm, 1.47x1.41mm) e 5 sulcos que oscilam entre 7.18x0.04mm e 4.21x0.39mm;

ÚmeroD: uma perfuração em plano de fractura, furrowing inicial na porção distal e relativa esfoliação em certas partes do osso. Foi possível medir 1 sulco (5.04x0.90mm) e 5 mordiscos, estes variando entre 2.51x1.26mm e 0.95x0.54 mm. Identificaram-se duas depressões com 3.28x2.15mm e 2.75x2.55mm;

TíbiaD: uma perfuração em plano de fractura e esvaciado na porção proximal e distal. Identificaram-se 2 sulcos (12.21x0.89mm, 5.46x0.73mm) e 2 mordiscos (1.14x0.56, 0.83x0.74mm);

TíbiaE: um dos planos de fractura parece apresentar liking e um outro demonstra efectivamente este comportamento. Apresenta esvaciado e Identificou-se 1 perfuração em plano de fractura associada a esmagamento de tecido cortical, tendo-se desprendido 1 lasca cortical aquando do manuseamento do elemento. Um mordisco apresentava 1.21x0.74mm;


Perspectivas futuras

Esta experiência é um primeiro passo para a elaboração de um protocolo experimental que visa a obtenção de dados actualistas acerca das modificações realizadas por animais aquando do consumo de restos.


Agradecimentos

Uma vez mais os nossos agradecimentos vão para a Smartie pela sua participação activa nesta experiência.

Nelson Almeida

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Modificações de superfícies ósseas, termoalterações por contacto com fogo. I – cremação diferencial

Os critérios usados para identificar termoalterações por contacto com fogo são normalmente macroscópicos. Os principais indicadores compreendem mudanças estruturais, índices de coloração, aumento da friabilidade associada à comparência de fissuras e recristalizações, diminuição de tamanho, deformações, fragmentação e desintegração.

Os dados empíricos actualistas demonstram uma sequência de diferentes estádios de tonalidade - castanho, negro, cinzento, branco – com fases intermédias, relacionados com vários aspectos (e.g. tempo de exposição, temperatura máxima atingida, tipo de osso, existência ou não de tecidos moles). Grosso modo, uma possível correlação destes aspectos abarcará modificações desde o ligeiramente queimado, à carbonização e calcinação.

Exemplo de cremação diferencial

Apresenta-se um rádio-ulnaD de ovino-caprino que, após a remoção dos carpais, metacarpo e falanges, foi submetido à acção calorífica de uma fogueira com tecidos moles. Os resultados são interessantes, sobretudo por 3 aspectos:

1 – Denotam-se alterações na porção 5 relacionadas com o contacto directo com o fogo (estádio intermédio com carbonização);

2 – Na face medial/porção 3 e 4 a maior parte dos tecidos moles foram removidos, embora tenha restado uma fina película de tecidos remanescentes e periosteum que protegeu parcialmente a superfície óssea. O resultado foi uma faixa de tonalidade creme com uma mancha castanha (estádio inicial por contacto indirecto e estádio intermédio inicial);

3 – A restante área encontrava-se protegida da acção calorífica directa, não apresentando qualquer mudança de tonalidade devida ao contacto com o fogo.

Este é um bom exemplo das diferenças a nível de coloração passíveis de comparecer num mesmo elemento anatómico submetido ao contacto com fogo.

Nelson Almeida