segunda-feira, 20 de junho de 2011

Modificações de superfícies ósseas, uma “experiência” de consumo com Canis familiaris. II – marcas de dentes.

Introdução

No post intitulado "Modificações de superfícies ósseas, uma 'experiência' de consumo com Canis familiaris. I – planos de fractura" (17/05/2011), procedeu-se à análise dos planos de fractura (e integridade) de vários ossos longos de ovino-caprino submetidos à acção de um Canis familiaris. Desta feita são apresentados os resultados sumários da análise das marcas de dentes encontradas nesses mesmos elementos.

Metodologia

Os elementos ósseos foram analisados com forte luz incidente e uma lupa de mão (4x). Registaram-se os indicadores tafonómicos, nomeadamente as marcas de dentes, segundo o seu número, localização (face, porção), características métricas e tipologia, i.e. mordiscos, perfurações, sulcos e depressões. Quando possível, as marcas de dentes foram medidas com um paquímetro digital (Lux).

Resultados

FémurD: uma perfuração em plano de fractura e vários sulcos, alguns dos quais imensuráveis. A esfoliação da superfície óssea é ténue e os sulcos passíveis de ser medidos (n=7) oscilam entre 9.47x1,47mm e 3.15x0.91 mm;

UlnaE: forte esfoliação da superfície óssea associada ao consumo da epífise proximal;

RádioE: uma lasca cortical ainda presa e algumas esfoliações, sobretudo associadas a mordiscos e sulcos. Foi possível medir 3 mordiscos (2.74x1.12mm, 1.94x1.25mm, 1.47x1.41mm) e 5 sulcos que oscilam entre 7.18x0.04mm e 4.21x0.39mm;

ÚmeroD: uma perfuração em plano de fractura, furrowing inicial na porção distal e relativa esfoliação em certas partes do osso. Foi possível medir 1 sulco (5.04x0.90mm) e 5 mordiscos, estes variando entre 2.51x1.26mm e 0.95x0.54 mm. Identificaram-se duas depressões com 3.28x2.15mm e 2.75x2.55mm;

TíbiaD: uma perfuração em plano de fractura e esvaciado na porção proximal e distal. Identificaram-se 2 sulcos (12.21x0.89mm, 5.46x0.73mm) e 2 mordiscos (1.14x0.56, 0.83x0.74mm);

TíbiaE: um dos planos de fractura parece apresentar liking e um outro demonstra efectivamente este comportamento. Apresenta esvaciado e Identificou-se 1 perfuração em plano de fractura associada a esmagamento de tecido cortical, tendo-se desprendido 1 lasca cortical aquando do manuseamento do elemento. Um mordisco apresentava 1.21x0.74mm;


Perspectivas futuras

Esta experiência é um primeiro passo para a elaboração de um protocolo experimental que visa a obtenção de dados actualistas acerca das modificações realizadas por animais aquando do consumo de restos.


Agradecimentos

Uma vez mais os nossos agradecimentos vão para a Smartie pela sua participação activa nesta experiência.

Nelson Almeida

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Modificações de superfícies ósseas, termoalterações por contacto com fogo. I – cremação diferencial

Os critérios usados para identificar termoalterações por contacto com fogo são normalmente macroscópicos. Os principais indicadores compreendem mudanças estruturais, índices de coloração, aumento da friabilidade associada à comparência de fissuras e recristalizações, diminuição de tamanho, deformações, fragmentação e desintegração.

Os dados empíricos actualistas demonstram uma sequência de diferentes estádios de tonalidade - castanho, negro, cinzento, branco – com fases intermédias, relacionados com vários aspectos (e.g. tempo de exposição, temperatura máxima atingida, tipo de osso, existência ou não de tecidos moles). Grosso modo, uma possível correlação destes aspectos abarcará modificações desde o ligeiramente queimado, à carbonização e calcinação.

Exemplo de cremação diferencial

Apresenta-se um rádio-ulnaD de ovino-caprino que, após a remoção dos carpais, metacarpo e falanges, foi submetido à acção calorífica de uma fogueira com tecidos moles. Os resultados são interessantes, sobretudo por 3 aspectos:

1 – Denotam-se alterações na porção 5 relacionadas com o contacto directo com o fogo (estádio intermédio com carbonização);

2 – Na face medial/porção 3 e 4 a maior parte dos tecidos moles foram removidos, embora tenha restado uma fina película de tecidos remanescentes e periosteum que protegeu parcialmente a superfície óssea. O resultado foi uma faixa de tonalidade creme com uma mancha castanha (estádio inicial por contacto indirecto e estádio intermédio inicial);

3 – A restante área encontrava-se protegida da acção calorífica directa, não apresentando qualquer mudança de tonalidade devida ao contacto com o fogo.

Este é um bom exemplo das diferenças a nível de coloração passíveis de comparecer num mesmo elemento anatómico submetido ao contacto com fogo.

Nelson Almeida

segunda-feira, 23 de maio de 2011

terça-feira, 17 de maio de 2011

Modificações de superfícies ósseas, uma “experiência” de consumo com Canis familiaris. I - planos de fractura.

Problemática arqueológica

Vários investigadores dedicam-se a questões relacionadas com modificações induzidas durante o consumo por diferentes animais. O objectivo principal é a aquisição de dados actualistas que permitam traçar paralelos com o registo arqueológico aquando da análise tafonómica. São vários os factores que influem (directa ou indirectamente) no tipo de fracturação resultante: características físico-químicas dos ossos (ex. estado, morfologia, animal) e aspectos biológicos (ex. fisiologia e etologia do carnívoro, pressão trófica, tipo de acesso). O resultado da pressão das cúspides dentárias nas superfícies ósseas é a fracturação e presença de marcas de dentes (apresentadas num post posterior). A primeira compreende geralmente morfologias em espiral ou helicoidais (Lyman, 1994).

Os canídeos domésticos (Canis familiaris) ocasionam principalmente planos de fractura típicos de ossos secos/semi-secos (ângulos rectos e mistos). Os canídeos fracturam e mastigam grande parte dos ossos longos, engolindo e digerindo muitos fragmentos de diâmetro <2,5 cm. O consumo poderá ocorrer através da redução das epífises dos ossos longos com acesso e consumo da medula óssea resultando em cilindros diafisários que, para além das típicas marcas dentes, poderão apresentar um adelgaçamentos associado a arredondamento/polimentos das superfícies ósseas, ou ainda sobrevir a formação de fracturas longitudinais acaneladas (ex. Payne e Munson, 1985; Haynes, 1980, 1983, 1985; Binford, 1981).

Materiais e Métodos

Durante sensivelmente 2 dias vários elementos ósseos de um indivíduo juvenil de Ovis aries estiveram acessíveis a um Canis familiaris adulto (Figura 1). Os restos eram provenientes de um churrasco, tendo estado directa e indirectamente submetidos a fogo durante cerca de 2 a 3 horas, e apresentavam somente alguns tecidos moles remanescentes não consumidos. Após a recolha dos restos, estes foram submetidos a tratamento através do seu fervimento durante cerca de uma hora para remoção dos vestígios presentes e, ulteriormente, foram deixados ao sol para secarem e serem analisados. Neste pequeno post somente faremos referência aos planos de fractura encontrados em duas tíbias (esquerda e direita), um fémur (direito), um rádio (esquerdo) e um úmero (direito). Os elementos encontravam-se parcialmente articulados antes do acesso para consumo mas devido ao carácter inesperado da situação não foi possível encontrar todos os elementos e os materiais resultantes da fracturação.

Figura 1: Elementos modificados durante o consumo.

A metodologia de análise segue Villa e Mahieu (1991) que no seguimento de Bonnichsen (1979) e Bunn (1983) contemplam a delineação em relação ao eixo longitudinal do osso (transversal, longitudinal, curva), o ângulo formado pelas fracturas (oblíquo, recto, misto) e a superfície de fractura (suave, irregular). Somente se analisaram fracturas localizadas na área cortical pois as existentes na zona cortical delgada ou esponjosa não são tidas como diagnósticas. A secção das diáfises é agrupada em A (S superior/igual 2/3), B (1/3 inferior/igual 2/3) ou C (S inferior 1/3). A longitude das diáfises é agrupadas em A (L inferior 1/4), B (1/4 inferior/igual ½), C (1/2 inferior/igual ¾) ou D (L inferior/igual ¾).

Resultados

Os diferentes elementos demonstram a completa destruição das epífises proximais e distais (Tabela 1). No que concerne às secções somente se averiguaram secções do tipo A; relativamente às longitudes encontram-se as classes D (3) e C (2). Tendo em conta que não estamos perante a uma experimentação mas sim uma experiência imprevista não nos foi possível encontrar as porções em falta, que terão sido completamente destruídas e/ou consumidas, o mesmo se poderá dizer para algumas lascas ósseas derivadas da fracturação. Ainda assim de relevar a existência de uma lasca cortical não desprendida na face posterior do rádioE. Outros indicadores de consumo, nomeadamente as marcas de dentes, foram averiguadas e serão apresentados num futuro próximo, contudo a inexistência de epífises estará interligada a esvaziado (furrowing em grau extremo).

Tabela 1: Análise das secções e longitudes dos diferentes elementos com indicação da presença ou ausência das distintas porções ósseas.

Análise

Elemento

FémurD

RádioE

TíbiaD

TíbiaE

ÚmeroD

Secção

A

A

A

A

A

Longitude

C

D

D

D

C

Porção 1

Inexistente

Inexistente

Inexistente

Inexistente

Inexistente

Porção 2

Quase inexistente

Parcialmente presente

Parcialmente presente

Quase inexistente

Inexistente

Porção 3

Presente

Presente

Presente

Presente

Presente

Porção 4

Inexistente

Parcialmente existente

Quase inexistente

Quase inexistente

Presente

Porção 5

Inexistente

Inexistente

Inexistente

Inexistente

Inexistente


A maioria dos planos de fractura comparecem em metáfises (cortical delgado) e como consequência não são analisáveis devido às características desta área óssea. É clara a preponderância de fracturas de delineação curva, contudo predominam os ângulos mistos e superfícies irregulares (Tabela 2).


Tabela 2: Análise dos planos de fractura segundo a delineação, ângulo e superfície.

Planos de fractura

Elementos

FémurD

RádioE

TíbiaD

TíbiaE

ÚmeroD

1

C-O-S

C-O-S

C-M-I

C-O-S

C-O-S

2

C-M-I

L-R-S

C-M-I

C-O-I

C-M-I

3

C-M-I

C-M-I

C-M-I

4

C-M-S

L-M-I

C-MI

5

C-O-S

T-M-I

6

L-R-S


Agradecimentos: gostaria de agradecer à Smartie, doravante também conhecida como "Bónita", pelo inesperado contributo nesta experiência.


Referências bibliográficas

- Binford, L.R., 1981. Bones: Ancient Men and Modern Myths. Academic Press, New York.

- Bonnichsen, R., 1979. Pleistocene bone technology in the Beringian Refugium. NMM, Otawa.

- Bunn, H.T., 1983. Comparative analysis of modern bone assemblages from a San hunter-gatherer camp in the Kalahari Desert, Botswana, and from spotted hyena den near Nairobi, Kenya. In:Vlutton-Brock, J. and Grigson, C. (Eds.), Animals and Archaeology, Hunters and their Prey, BAR International Series 163, Vol. I., pp. 143-148.

- Haynes, G., 1980. Evidence of carnivore gnawing on Pleistocene and recent mammalian bones. Paleobiology 6, 341-351.

- Haynes, G., 1983. A guide for differentiating mammalian carnivore taxa responsible for gnaw damage to herbivore limb bones. Paleobiology 9, 164-172.

- Haynes, G., 1985. On watering holes, mineral licks, death and predation. In: Mead, J. and Metzer, D. (Eds.), Environments and Extinctions: Man in Late Glacial North America. Center for the Study of Early Man, Orono, ME, pp. 53-71.

- Lyman, R.L., 1994. Vertebrate Taphonomy. University Press, Cambridge.

- Payne, S., Munson, P.J., 1985. Ruby and how many squirrels? The destruction of bones by dogs. In Fieller, N.R.J., Gilbertson, D.D. and Ralph, N.G.A. (Eds.), Palaeobiological Investigations: Research Design, Methods, and Data Analysis, BAR International Series S266. Archaeopress, Oxford, pp. 31-39.

- Villa, P., Mahieu, E., 1991. Breakage patterns of human long bones. Journal of Human Evolution 21: 27-48.


Nelson Almeida