quinta-feira, 5 de maio de 2011

A origem da acumulação de leporídeos da Gruta do Morgado superior (Alto Ribatejo, Portugal Central)

Contexto

Na Gruta do Morgado superior (GMS) foram inteligíveis duas ocupações distintas (Tabela 1), numa estratigrafia estigmatizada por um forte remeximento que impossibilitou a separação dos restos arqueofaunísticos das diferentes camadas (A/B). Tendo estas atenuantes em mente, assim como a proveniência dos vestígios (sondagem 6m2) e o reduzido tamanho da colecção (NSP[1]=127) que foi analisada como se fosse um contexto uno, os dados devem ser interpretados à sombra destas especificidades. Somente apresentaremos os resultados referentes à acumulação de leporídeos.








Figura 1: Localização da Gruta do Morgado superior.

Tabela 1: Descrição sumária da estratigrafia e registo arqueográfico da GMS (Cruz, 1997; Oosterbeek, 1997; Oosterbeek & Cruz, 1998).

ID

Descrição

Camada

Registo Arqueográfico

A

Forte remeximento, c. 10 cm. de espessura, pulverulenta.

Muito parco, estrutura de combustão parcialmente conservada e materiais históricos (séc. XVIII/XIX).

B

c. 30 cm. de espessura, parcialmente assente sobre manto estalagmítico.

Enterramentos ( Neolítico final/Calcolítico), cerâmica incisa e lisa globular.

Resultados

Para os restos identificados como Oryctolagus cuniculus (NISP[2]=51, MNE[3]=42, MNI[4]=6) e Lepus sp. (NISP=1, MNE=1, MNI=1) (Tabela 2), o cálculo de idades baseou-se na esqueletocronologia e características da superfície óssea (ex. Jones, 2006). O MNI obtido para O. cuniculus foi de 6, designadamente 5 indivíduos imaturos e 1 neonato; para Lepus sp. a completa fusão epifisial do fémur engloba este espécime na classe adulto. Averiguou-se uma predominânica de fracturação em fresco, tendo-se excluído a influência de aves na acumulação pelo que, a priori, a mesma resultaria de acção antrópica ou natural, incluindo uma possível acção de carnívoros. À falta de indicadores tafonómicos directos (ex. marcas de corte, fervura, marcas de dentes), para os leporídeos é usual recorrer-se a indicadores indirectos (ex. representação anatómica, perfis de idade, cilindros diafisários) para discernir do carácter antrópico ou não das acumulações (Hockett, 1991; Pérez Ripoll, 1993; Hockett & Bicho, 2000; Jones, 2006).

Neste conjunto averigua-se um predomínio de elementos atribuídos a O. cuniculus e outros restos de animais com <20 kg (GP1). Identificaram-se 13 cilindros diafisários de GP1, dos quais 9 correspondem a O. cuniculus. A acção de fogo apenas se evidenciou em 4 elementos de O. cuniculus e 1 de GP1 (grau 2, Stiner et al., 1995). A influência de carnívoros encontra-se em 5 registos, sobretudo sob a forma de perfurações em plano de fractura de elementos de O. cuniculus, duas perfurações isoladas em dois fragmentos de ossos longos de GP1 e uma depressão em fragmento de osso longo de GP1. As características métricas destas mordeduras parecem sugerir a acção de um pequeno carnívoro (ex. Selvaggio & Wilder, 2001; Domínguez-Rodrigo & Piqueras, 2003; Delaney-Riviera et al., 2009).

Tabela 2: Valores NISP (MNE) por elemento anatómico e taxon/cat. taxonómica.


Lepus sp.

O. cuniculus

Dente


2(2)

Hemimandíbula


2(2)

Vértebra


5(5)

Costela


6(3)

Pélvis


3(3)

Fémur

1(1)

10(7)

Tíbia


8(6)

Úmero


3(2)

Ulna


1(1)

Metatarso


3(3)

Metápodo


3(3)

Calcâneo


5(5)

Discussão

O número de cilindros diafisários e fragmentos com evidências de uso de fogo não são conclusivos e, na nossa opinião, não são suficientes face à ausência de Indicadores tafonómicos directos de uma influência antrópica na acumulação. Retirando da equação a acção de aves e tendo em conta os dados obtidos da análise das mordeduras cogitamos uma acção da parte de um carnívoro de porte pequeno. O predomínio de elementos dos membros posteriores (fémur e tibia), assim como a tipologia e localização das marcas de dentes, a reduzida percentagem de mandíbulas e padrões demográficos favorecem esta aproximação. Em detrimento, o reduzido número de vertebras por indivíduo, a presença de cilindros diafisários e fragmentos com evidências de acção de fogo podem apontar uma influência antrópica. Poderemos estar face a uma acumulação mista, contudo os dados são inconclusivos e somente com a continuação das escavações e o incremento do registo arqueofaunístico se poderá contrastar tal possibilidade.

Agradecimentos: a João Belo pelo cartografia.

Referências bibliográficas

Cruz, A.R., 1997. Vale do Nabão do Neolítico à Idade do Bronze. Arkeos 3. Tomar: Ceiphar.

Delaney-Rivera, C., Plummer, T.W., Hodgson, J.A., Forrest, F., Hertel, F., Oliver, J.S., 2009. Pits and Pitfalls: taxonomic variability and patterning in tooth mark dimensions. Journal of Archaeological Science 36, pp. 2597- 2608.

Domínguez-Rodrigo, M., Piqueras, A., 2003. The Use of Tooth Pits to Identify Carnivore Taxa in Tooth-Marked Archaeofaunas and their Relevance to Reconstruct Hominid Carcass Processing Behaviors. Journal of Archaeological Science 30, pp. 1385-1391.

Hockett, B. S., 1991. Toward Distinguishing Human and Raptor Patterning on Leporid Bones. American Antiquity 56 (4), pp. 667-679.

Hockett, B. S., Bicho, N., 2000. The Rabbits of Picareiro Cave: small mammal hunting during the Latter Upper Paleolithic in the portuguese Estremadura. Journal of Archaeological Science 27, pp. 715-723.

Jones, E.L., 2006. Prey Choice, Mass Collecting, and the Wild European Rabbit (Oryctolagus cuniculus). Journal of Anthropological Archaeology 25, pp. 275-289.

Oosterbeek, L., 1997. Echoes from the East: late Prehistory of the North Ribatejo. Arkeos 2. Tomar: Ceiphar.

Oosterbeek, L., Cruz, A.R., 1998. Gruta do Morgado Superior. Techne 4. Tomar: Arqueojovem/Instituto Politécnico de Tomar, pp. 201-209.

Pérez Ripoll, M., 1993. Las Marcas Tafonomicas en Huesos de Lagomorfos. Estudios sobre Cuaternario, pp. 227-231.

Selvaggio, M.M., Wilder, J., 2001. Identifying the Involvement of Multiple Carnivore Taxa with Archaeological Bone Assemblages. Journal of Archaeological Science 28, pp. 465-470.

Stiner, M.C., Kuhn, S.L., Weiner, S., Bar-Yosef, O., 1995. Differential Burning, Recrystallization, and Fragmentation of Archaeological Bone. Journal of Archaeological Science 22, pp. 223-237.

Nelson Almeida


[1] Number of specimens.

[2] Number of identified specimens.

[3] Minimum number of elements.

[4] Minimum number of individuals.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

21 000 visitas!!!

É com bastante satisfação que a um mês de fazer 3 anos de existência informamos que este blog do nosso grupo de investigação ultrapassou hoje as 21 000 visitas! Queremos agradecer a tod@s os que colaboraram nesta divulgação, seja participando nos variados trabalhos, discussões, publicando pequenos trabalhos ou simplesmente visitando e aconselhando a visita.

A tod@s pedimos que continuem com a colaboração de forma a manter esta divulgação de uma parte do que vamos fazendo na investigação e didáctica da tecnologia «pré-histórica».
Abraços

terça-feira, 26 de abril de 2011

Macrolíticas pós-glaciares - simplesmente uso oportuno de matéria prima local?

A ideia de que as abundantes indústrias sobre seixos rolados de quartzito associadas a sítios pós-glaciares é unicamente uma oportuna e muito simples exploração de matérias primas locais parece-nos cada vez mais redutora.












Entre outras razões veja-se o caso dos inúmeros seixos talhados com planos de talhe muito abruptos e cuja produção não é nada fácil. Isto é, se têm estas características, não é porque a sua forma simplesmente condiciona ou se presta a isso, deliberadamente foi aplicada uma cadeia-operatória para que o resultado fosse esse. E até pode ser básico, mas fácil não é...





































Porquê? Essa é outra história, certamente relacionada com uma funcionalidade especifica destas peças.

Sara Cura e Pedro Cura

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Cerâmica: Aspecto visual semelhante em processo diferentes

O processo de experimentação em tecnologia cerâmica permite entre outras variáveis avançar em técnicas de replicação com efeitos estéticos tipo peças com marcas de utilização sobre fogueiras.








A peça com apêndices produzida sobre o processo experimental foi por cerca de cinco vezes utilizada na preparação de alimentos sobre estruturas de combustão tipo fogueira, as manchas em sua parede externa são resultado e diferentes atmosferas em que a peça entrou em contato durante a preparação de alimentos.

A peça com decoração incisa é fruto de um processo de replicação com efeitos atmosféricos dentro da estrutura de combustão durante sua cozedura. As manchas visíveis resultam de variações atmosféricas provocas intencionalmente para dar à peça um aspecto arqueológico.








Essas e outras variações são possíveis a nível experimental graças às pesquisas até aqui desenvolvidas demonstrando que é possível pensar o processo produtivo das várias cadeias operatórias e aplica-lo na replicação de vasilhas.

Fotos, Texto e peças e processo experimental feito por Jedson Cerezer

terça-feira, 19 de abril de 2011

AGENDA: XIX Campeonato europeo de tiro con arco














Parece-nos uma óptima viagem!
Assistir ao campeonato, visitar o centro de arte rupestre, bem como os povoados pré-históricos e os sítios de arte esquemática e levantina...

terça-feira, 12 de abril de 2011

1st letter/1ª Circular - 3rd International Congress of Experimental Archaeology


Dear colleagues,

We would like to inform you about the celebration of the 3rd International Congress of Experimental Archaeology (Banyoles, 17-19 October). The first letter from the organization and the event's poster are attached to this mail.

Conference dates and locations: The Conference will be held in the town of Banyoles (Girona, Spain) from 17 to 19 October 2011, in the Auditorium of Ateneu de Banyoles (c/ Canal, 22-26), where the presentations and lectures will be given.

-----------------

Estimados colegas,

Queremos informaros de la próxima celebración del 3er Congreso internacional de arqueología experimental (Banyoles, 17-19 de octubre 2011). Adjuntamos la primera circular de la organización y el poster del evento.

Fechas y lugares de celebración: El Congreso se celebrará en la ciudad de Banyoles (Girona), del 17 al 19 de octubre de 201, en el Auditorio del Ateneu de Banyoles (c/ Canal, 22-26), donde tendrán lugar las sesiones de presentación de ponencias y comunicaciones.

------------------

Volem informar-vos de la propera celebració del 3r Congrés internacional d'arqueologia experimental (Banyoles, 17-19 de octubre). Adjuntem la primera circular de la organització i el póster de l'esdeveniment

Data i llocs de celebració: El Congrés tindrà lloc a la vila de Banyoles, del 17 al 19 d'octubre de 2011, a l'Auditori de l'Ateneu de Banyoles (c/ Canal, 22-26), on es faran les sessions de presentació de ponències i comunicacions.

Yours,
Cordialmente,
Atentament,

Millán Mozota

Secretario
Asociación Española de Arqueología Experimental EXPERIMENTA

info@asociacionexperimenta.com
http://www.asociacionexperimenta.com

segunda-feira, 14 de março de 2011

sexta-feira, 4 de março de 2011

Experimentação em polimento

As atividades de experimentação em polimento que vêm sendo desenvolvidas foram pensadas a partir de diversos questionamentos relacionados aos sítios arqueológicos denominados “oficinas líticas”, especialmente os localizados na Ilha de Santa Catarina, Florianópolis, Brasil, região que possui uma das maiores concentrações deste tipo de sítio naquele país.



















A vermelho o Estado de Santa Catarina

Existem, ainda, poucos trabalhos de pesquisa especificamente dedicados a estes sítios, razão

pela qual a problemática arqueológica a eles inerente é ainda permeada por diversas dúvidas efrágeis suposições. É praticamente consenso entre os pesquisadores que estas estruturas seriam locais de fabricação de material lítico polido, sobretudo machados, mas tal processo é ainda pouco explorado.














Sítio oficina lítica em suporte de granito















Utilização de suportes em diabásio


A experimentação em questão foi pensada numa perspectiva de buscar questionamentos e
um novo olhar sobre estes sítios. A metodologia proposta envolve a “cadeia operatória” a estes relacionada, ou seja, a relação entre os suportes utilizados e os materiais neles produzidos. O material utilizado é proveniente do Brasil, e foi captado em locais próximos aos sítios.







Polimento de artefato em suporte de diabásio

Os principais objetivos são analisar os diferentes comportamentos dos dois tipos principais de matéria-prima utilizada, o diabásio e o granito, avaliar o investimento de tempo necessário para a fabricação dos machados e a relação entre os movimentos empreendidos e seu resultado, tanto nos suportes quanto nos artefatos.















Resultado no suporte de diabásio, após aproximadamente 16h de trabalho
















Pré-forma antes do trabalho de polimento















Machado pronto após 15 horas de trabalho




O desenvolvimento das atividades tem proporcionado diversos questionamentos e diferentes raciocínios acerca destes sítios. Tanto o diferente comportamento das matérias-primas, quanto o grande investimento de tempo necessário para a realização da tarefa, conforme tem-se verificado na prática, bem como as morfologias das marcas deixadas nos suportes, são resultados que, quando confrontados com a realidade encontrada nos sítios arqueológicos, contribuem de forma significativa para sua melhor compreensão e, sobretudo, na busca por novas perguntas.

DANIELA SOPHIATI

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Sessão no XVI Congresso da UISPP

Car@s colegas,

No âmbito do próximo congresso da UISPP que terá lugar em Florianópolis (Brasil) entre 4 e 10 de setembro do corrente ano nós estamos a organizar uma sessão subordinada ao tema «Tecnologia e Experimentação». Em baixo encontrarão os fundamentos e respectivos objectivos.

Ficaremos muito contentes se aceitar participar e apresentar o seu trabalho. Se estiver interessad@ por favor envie-nos um título e um resumo com um máximo de 200 palavras

Desde já agradecemos a divulgação desta sessão junto de todos aqueles que possam ser interessados nesta temática.

Os nossos melhores cumprimentos,

Jedson Cerezer (Brazil) jcpithi@gmail.com

Sara Cura (Portugal) 0saracura0@gmail.com

Maria Gurova (Bulgaria) gurovam@yahoo.fr

Boris Santander (Chile) boris.santander@gmail.com

Tecnologia e Experimentação

A experimentação como método de contrastação de hipóteses não é nova nos estudos de arqueologia pré-histórica que focam os processos tecnológicos. Já desde a década de 70 que em consequência, quer da introdução dos conceitos de cadeia operatória no seio da escola paleo - etnológica, quer dos estudos actualísticos no âmbito teórico da arqueologia processual, se recorre à experimentação e utilização de réplicas de artefactos arqueológicos na procura de respostas acerca dos processos tecnológicos e funcionais a estes inerentes. No entanto, desde os anos noventa que os trabalhos de interface tecnologia e experimentação têm proliferado a nível mundial, resultando num renovado interesse na incorporação de estudos actualistas, em particular no âmbito de análises de cariz tecno-funcional.

Contudo, não são poucas as críticas aos procedimentos experimentais no estudo dos processos tecnológicos, questionando-se os seus fundamentos teóricos e validade explicativa. Estas críticas derivam em parte de uma óptica essencialmente morfo-tipologica na análise dos conjuntos artefactuais; mas também pela falta de compreensão do alcance dos estudos actualisticos e experimentais.

Esta sessão convida à discussão sobre aplicabilidade e alcance da experimentação no estudo das tecnologias pré-históricas através da apresentação de reflexões e/ou estudos caso sobre a modificação e utilização das mais variadas matérias-primas (argilas, pedra, osso, matéria vegetal, etc) empregues na produção de artefactos.

Dear all,

In the frame of the next IUPPS in Florianópolis (Brazil) from the 4th to 10th of september 2011 we are organizing a session entitled «Technology and Experimentation». You find its fundaments and goals attached.

We would be very pleased if you accept to participate and present your work and if you are interested please send us a title and a short abstract of 200 words

We thank you in advance for the diffusion of this session to those who may be interested in such thematic.

Best regards,

Jedson Cerezer (Brazil) jcpithi@gmail.com

Sara Cura (Portugal) 0saracura0@gmail.com

Maria Gurova (Bulgaria) gurovam@yahoo.fr

Boris Santander (Chile) boris.santander@gmail.com

Technology and experimentation

Experimental Archaeology as a hypothesis contrast method focusing on technological studies is not new in archaeological research procedures. Since the early 1970s as a consequence of the application of châine-operatoire/reduction sequence concepts within the framework of Palaeo-ethnological investigation, or within the actualistics studies highly developed in the framework of Processual Archaeology, the experimentation and utilization of artefact replicas have been used in the search for answers regarding technological procedures and their functional aspects.

However, since the 1990s the research interface technology/experimentation worldwide has increased resulting in a renewal of procedures and interest in the incorporation of such studies particularly in the field of techno-functional analysis of prehistoric artefacts.

Nevertheless the critics’ experimental procedures are abundant, questioning its theoretical fundamentals and explanation validity. These remarks result both from the morpho-typological approaches’ to artefact assemblages, but also from a lack of comprehension interpretative of the range and goals of such studies.

This session invites discussion on the present applicability and future perspectives of experimental procedures applied to the study of prehistoric technology studies, through the presentation of reflections and/or study cases regarding the modification, utilization and discard of varied raw materials employed in the fabrication of prehistoric artefacts (clay, stone, bone, vegetal material)

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Melhor divulgação, era impossível!













Com muita satisfação vimos a nossa actividade satirizada nas páginas do Cavaleiro Andante do Jornal « O Mirante», um dos mais importantes jornais do distrito de Santarém!

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Workshop de «cozinha Pré-Histórica»













Um lugar comum é dizer: somos o que comemos.

Mais raro é perguntar porque é que comemos o que comemos hoje em dia? Que história está por detrás de tão variados hábitos gastronómicos? E que papel teve a dieta alimentar na nossa evolução?

Entender os hábitos alimentares desde esta perspectiva é fulcral para nos darmos conta de alguns erros que cometemos actualmente e das potenciais consequências que estes terão no futuro da humanidade.

Estas questões serão mote de conversa durante a preparação e degustação de uma série de experiencias culinárias pré-históricas!

Claro que também vamos explicar como é que nós, arqueólogos, reunimos informação para vos poder contar e cozinhar a história da nossa dieta!

Desperte a curiosidade, abra o apetite e inscreva-se já!!!!

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

sexta-feira, 17 de dezembro de 2010

Dilemas (paleo) tecnológicos

Face à une collection archéologique, il est pratiquement impossible d’identifier les objets intentionnellement recherchés pour fonctionner.

Comment faire la différence entre un déchet de taille qui présente un tranchant de coupe identique à celui que portera l’objet recherché, objectif de la production, si ce n’est que ce dernier doit certainement posséder d’autres caractères techniques et/ou de signes jugés indispensables pour fonctionner. Mais, lesquels ?






L’outil a beau être le support externalisé d’une mémoire, nous sommes dans l’incapacité d’accéder, ni à sa fonction ni a fortiori à son fonctionnement. Ce sont des objets qui sont en dehors de toute mémoire technique contemporaine.

En revanche, nous postulons que la compréhension des modes de production nous conduit à en déterminer leur(s) finalité(s), c’est-à-dire le pourquoi de leur existence technique, autrement dit les intentions techno-fonctionnelles, donc les outils. Par analogie, nous sommes dans le cas de figure où nous aurions devant nous une partie des éléments constituant une ou plusieurs machines totalement inconnues, que nous devrions reconstruire, sans plan, matériellement ou mentalement, afin d’en déterminer la (les) fonction(s) et le (les) mode(s) de fonctionnement, mais aussi les objets de leur production et leur fonctionnement. Vaste programme que s’efforce de réaliser la technologie préhistorique.

E. Boëda Paléo-technologie ou anthropologie des Techniques ?

Arob@se, www. www.univ-rouen.fr/arobase, volume 1, pp. 46-64, 2005

Podia ter sublinhado o possível e não a dificuldade, é verdade. Mas vocês não têm daqueles dias em que olham para os «artefactos» e perguntam mas como? Como reconhecer o que está fora do nosso conhecimento? Será possível? Provavelmente só conseguimos reconstruir fragmentos das intenções tecno-funcionais. Mais do que isso é mesmo difícil.

Enfim a frustração de quem pergunta também deriva da desproporção entre as questões que coloca e o que pode ser atendível como resposta…é como perguntar algo a uma pessoa que não consegue responder. Das duas, umas, ou reformulamos a pergunta, ou inventamos nós a resposta. Melhor a primeira. Também me podem dizer, pergunta a outra!

Em qualquer dos casos e apesar do desalento ocasional, procurar entender a tecnologia ao longo de 3 milhões de anos é um desafio irresistível.

S. Cura

Relação entre combustível e combustão: experiencias de recolha e transformação – ALGUMAS OBSERVAÇÕES E BIBLIOGRAFIA


As noções de abundância e escassez são como as noções de qualidade da matéria-prima, isto é, são subjectivas porque dependem das necessidades e objectivos tecno-económicos das comunidades pré-históricas. De todas as formas podemos dizer que com um grupo maior e uma duração mais prolongada a recolha de madeira seca começaria a ser mais complicada devido ao aumento da distância a percorrer. Esta aumentou 50 metros por dia. Podemos dizer que abaixo dos 1500 m se está num raio local, mas a nossa recolha foi de pouca quantidade e é um facto que a biomassa disponível em madeira seca é sempre inferior à madeira verde.

A isto devemos acrescentar o facto de a madeira seca queimar muito mais depressa. A vantagem reside na facilidade de colecta (como referimos, só pontualmente foi necessário recorrer a instrumentos de pedra para cortar os ramos secos de forma a facilitar o seu transporte).

Mais observamos que ambas as estruturas e combustões atingiram temperaturas mais do que suficientes para as tarefas e funcionalidades associadas. Para aquecimento, cozinhar, fabricar resinas qualquer tipo de madeira atinge a temperatura necessária. Assim a relação entre o tipo de madeira e a funcionalidade das estruturas para estas actividades não faz grande sentido.

BIBLIOGRAFIA (ELEMENTAR)

Théry-Parisot, I. (1998). Economie des combustibles et paléoécologie en contexte glaciaire et périglaciaire, Paléolithique moyen et supérieur du sud de la France (Anthracologie, Expérimentation, Taphonomie). Doctorat, Université de Paris I Panthéon- Sorbonne, pp. 500

Théry-Parisot, I. & Meignen, L. (2000). Economie des combustibles bois et lignite dans l’abri mouste´rien des Canalettes, de l’expérimentation à la simulation des besoins énergétiques. Gallia Pre´histoire 42, p. 45–55.

Théry-Parisot, I. (2001). Economie des combustibles au Paléolithique. Expérimentation, Taphonomie, Anthracologie. Paris CNRSEditions Col. Dossiers de Documentation Archéologique, 20, 196 pp.

Théry-Parisot, I. (2002) Fuel Management (Bone and Wood) During the Lower Aurignacian in the Pataud Rock Shelter . Contribution of Experimentation, Journal of Archaeological Science 29, P. 1415–1421

LA TRANSFORMACIÓN DE UN RECURSO BIÓTICO EN ABIÓTICO: ASPECTOS TEÓRICOS SOBRE LA EXPLOTACIÓN DEL COMBUSTIBLE LEÑOSO EN LA PREHISTORIA de Ethel Allué Martí y Mª Dolores García-Antón Trassierra

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Relação entre combustível e combustão: experiencias de recolha e transformação – A EXPERIÊNCIA

12-14 de Junho de 2010

Local : Azenha do Cavaco

Tipo de madeira utilizada:

Amieiro (Alnus glutinosa e Alnus incana)

Toda a madeira foi recolhida morta, sem selecção de morfologia e partida à mão, ocasionalmente com recurso a instrumentos de pedra, com excepção de um grande tronco seco que se quebrou através da combustão.




























































O combustível lenhoso recolhido foi utilizado em duas estruturas distintas:

ESTRUTURA 1 - uma para secar carne, sem estrutura pétrea e com uma diâmetro máximo de 50cm

















ESTRUTURA 2 -
para várias funções: aquecimento, cozinhar, preparar resinas, etc; com cerca de 80cm de diâmetro e uma estrutura pétrea a delimitar















































As duas estruturas tiveram uma combustão contínua (os participantes do acampamento alternavam para garantir que nunca se apagavam) e somou 67h, tendo sido queimados 140kg de lenha.

A temperatura foi mínima foi de 100°, média de 400°, máxima de 600°. Esta foi registada com pirómetro no centro da fogueira a medir a temperatura que emana e não a temperatura da combustão, já que esta atinge valores muito mais altos.







Tempo, quantidade e área de aprovisionamento:

1 dia a recolha durou 30 min, feita num raio de 50m e caminhou-se cerca de 624m ( a distancia foi controlada com?) para recolher 50kg

2 dia a recolha durou 40min, alargou-se a área em 50m e caminhou-se cerca de 1km tendo sido recolhida 60kg de lenha

No 3 dia a recolha durou 20min, atingiu um raio de 150m e foram recolhidos 30kg de lenha

Factores extrínsecos:

Estes não foram medidos com precisão já que não foram utilizados os equipamentos que podem medir o vento, a pressão atmosférica, a temperatura e a humidade do ar.

Grosso modo podemos dizer que os ventos foram sempre muito fracos, a humidade estava baixa e a temperatura média rondou os 20°

Continua...