quarta-feira, 7 de abril de 2010

Gravuras experimentais

Há cerca de um ano atrás, no âmbito do projecto RupTejo e do trabalho académico de Carole Ridel sobre a arte rupestre do vale do Tejo, a equipa que trabalha em arqueologia experimental no Museu de Mação e Instituto Terra e Memória fez uma série de gravuras experimentais numa zona do Vale do Ocreza totalmente destruída após a construção de um viaduto da A23. Utilizámos vários tipos de instrumentos, várias modalidades técnicas e gestuais…mas o que se fez foi montar uma metodologia que só de forma preliminar foi aplicada. Este trabalho que colheu críticas negativas, mas também muitas positivas, e vai seguramente ter continuidade.

Deixamos aqui uma cópia da apresentação de Carole Ridel nas IV Jornadas de Arqueologia Ibero-Americanas.

Sara Cura



sexta-feira, 2 de abril de 2010

Fabricação de uma foice, um pormenor

Fase final da fabricação de uma foice «neolítica»: fixação dos elementos em sílex com uma cola feita de resina de pinheiro e carvão. O cabo foi feito com madeira de oliveira.

Em breve explicaremos todo o processo de fabricação.


quarta-feira, 24 de março de 2010

Arte Rupestre e Líticos

Num encontro imprevisto o Pedro Cura e Ramon Viñas fizeram instrumentos, gravuras e pinturas, trocando experiências e informações fantásticas. Não é exactamente arqueologia experimental o que se vemos nesta sequência de imagens, mas é investigação de acordo com a nossa perspectiva heurística do que pode ser a experimentação.



S. Cura

Projecto Andakatu: Educar no presente através do passado, preparando o futuro


O Museu de Arte Pré-Histórica de Mação embora actuando em diversas áreas (investigação, gestão, conservação, valorização…), tem como papel principal propiciar aos seus utilizadores espaços de encontro, de reflexão, de construções de conhecimento e de novos conceitos, e de elaboração de juízos críticos. A diversidade dos seus utilizadores e interlocutores resulta em discursos que podem ser distintos, mantendo todavia as bases temáticas das exposições do Museu.
É este o contexto da Educação Patrimonial do Museu, cuja face mais pública é o Projecto “Andakatu» que tem uma dimensão prática e uma vocação especial para a interacção com jovens e crianças. O “Andakatu” é um personagem que, por vezes vestido com «roupas» de caçador paleolítico ou agricultor neolítico (protagoniza e conduz os participantes em variados ateliers cujos conteúdos (discurso e materiais didácticos) têm por base a transformação da paisagem, a tecnologia, a arte rupestre, a transição da caça e recolecção para o agro-pastoralismo, transformações sociais, equilíbrio e sustentabilidade dos recursos ambientais.
As actividades são um prolongamento prático de um diálogo com os visitantes que se quer dinâmico e contextualizado nas interpretações do que poderá ter sido a vivência das comunidades humanas ao longo da pré-história, mas que também pretende ser um instrumento de educação cívica e ambiental.
Assim, através das acções educativas, de forma sucinta, pretendemos também transmitir que:
• A arqueologia pré-histórica compreende o comportamento humano do passado enquanto adaptação cultural que interage com o ambiente, sublinhando a diversidade de comportamentos e culturas na pré-história, mas nunca deixando de mencionar que na sua essência são comuns a toda a humanidade. Estas referências procuram uma melhor compreensão das diferenças sociais e culturais do mundo actual e estimulam nos jovens e crianças a noção de interculturalidade e aceitação do outro.
• A prática da arqueologia combina tecnologias altamente avançadas e complexas, mas permite ao mesmo tempo o envolvimento de pessoas sem treino especializado e que até certo ponto podem fazer parte do processo de construção do conhecimento. Estas são referências que procuram estimular e desenvolver nos jovens e crianças a educação científica não formal.
• A arqueologia não separa as ciências humanas, as ciências da terra e as ciências básicas e que por isso é desenvolvida sem segmentação do conhecimento. Assim procura-se despertar a consciência de que o conhecimento é construído através da combinação de várias disciplinas, métodos e diálogos.
• Quando estudamos pré-história percebemos que os seres humanos viveram durante milénios em harmonia e equilíbrio com o seu ambiente, ao contrário do que se passa actualmente. Os humanos pedem demais à natureza, sem consciência de que dela depende a nossa sobrevivência. Esta referência procura incutir a consciência e preocupação de que temos de explorar os recursos ambientais de forma sustentável.
• Igualmente o estudo do passado mostra-nos como as alterações climáticas sempre afectaram as comunidades humanas, no entanto aquelas que enfrentamos hoje, não são só naturais. São induzidas pela acção de homens e mulheres e têm consequências ainda mais catastróficas quando verificamos que desde a pré-história temos vindo a ocupar todas as regiões do planeta, incluindo aquelas mais vulneráveis a catástrofes ambientais. Assim despertamos nos jovens e crianças uma atenção mais crítica para o problema do aquecimento global.
Os ateliers do Andakatu têm como base a experiência directa, assumindo a experimentação tecnológica um papel fulcral para desenvolver uma percepção mais profunda e duradoura dos temas a transmitir Estas experiências, contudo, não são unicamente lúdicas, mas estruturadas em directa articulação com as experimentações desenvolvidas no âmbito dos programas de investigação sobre tecnologias pré-históricas.
Desta forma a educação patrimonial não separa a teoria da prática, ou a investigação da didáctica, que não é assim reduzida a uma popularização simplista dos resultados da investigação. Mais uma vez o objectivo é envolver os visitantes, jovens e adultos, sem formação específica em arqueologia, nos problemas da investigação científica. É por isso que não divulgamos só resultados finais, mas sobretudo as questões e os métodos à nossa disposição para lhes responder, assumindo que em arqueologia, como em qualquer outra disciplina, a comunicação com o público não é dissociável da promoção de um espírito crítico e reflexão interrogativa.
A inclusão de actividades de experimentação na apresentação didáctica da pré-história e os riscos de «banalização» dos conteúdos científicos que daí podem resultar têm sido apontados e discutidos. Na verdade, é precisamente o facto de o Projecto Andakatu ser desenvolvido em directa articulação com a pesquisa arqueológica que lhe garante uma correcta divulgação de conhecimento científico, mas sempre inteligível. Assim, a inclusão da experimentação na educação patrimonial não constitui um «perigo» para a pesquisa mas e é também a garantia da sua continuidade, já que o conhecimento científico dificilmente encontra um amplo sentido se for unicamente suportado e entendido pelos seus profissionais especializados.
A educação patrimonial decorre em vários espaços e é concretizada em diversas actividades. Para além da orientação personalizada das visitas nos espaços expositivos, que no caso de públicos mais jovens podem ser dinâmicas recorrendo a exercícios didácticos especificamente preparados para tal as acções educativas (ateliers e demonstrações) têm lugar no espaço exterior do Instituto Terra e Memória, mas também noutros locais. O trabalho educativo fora do espaço físico do Museu decorre, sobretudo, em escolas do ensino básico e 2º ciclo em Portugal. Em Sessões que «sintetizam» e demonstram em perspectiva a história da nossa «evolução com base no estudo das tecnologias pré-históricas.
Como meios de divulgação o projecto recorre à rubrica «Curiosidades do Andakatu», publicada no Boletim Municipal Horizonte Verdinho que é especialmente vocacionado para as crianças. É divulgado no site oficial do Museu (www.museumacao.pt.vu), mas também num blogue de apresentação de conteúdos e partilha de experiencias e finalmente um canal no Youtube (www.arqueologiaexperimental.blogspot.com e http://www.youtube.com/user/Andakatu)

Em balanço…
Podemos com alguma certeza afirmar que o projecto tem resultados positivos e que acompanha o crescimento do Museu de Mação. O desde 2007 que o projecto colabora com dezenas instituições (citamos só algumas):
• Escolas portuguesas de Ensino Básico e 2º Ciclo (mais de 30);
• Museus e Centros de interpretação: Museu de Antropologia e Arqueologia da Universidade de Cambridge (Reino Unido), Museu Tavares Proença Júnior, Museu Nacional de Arqueologia, Museu Agrícola dos Riachos, Centro de Interpretação de Arqueologia do Alto Ribatejo, Centro de Interpretação da Natureza de Fuentes de Oñoro (Espanha), Parque Natural da Serra d’Aire e Candeiros;
• Associações: Sociedade de Arqueologia Brasileira, International Summer School on European Prehistory (Sardenha,Itália), Cooperativa L’Orme Del Uomo (Valcamónica, Itália), Young Archaeologist Club (Reino Unido), Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Regional
• Entidades comerciais privadas: Torreshoping, Electrosul (Brasil);
• Municípios: Ayuntamiento de Santiago de Alcântara (Espanha); Município de Mafra
Assim entre 2007 e 2009 o Projecto envolveu mais de 5000 crianças, jovens e adultos.
A educação patrimonial no Museu de Mação é bem sucedida, quer em termos de solicitação, quer em termos de eficácia na transmissão das mensagens e conteúdos devido ao cuidado posto na sua preparação, à permanente articulação entre o programa e as necessidades específicas dos seus utilizadores e ao facto de ter na equipa didáctica investigadores dos Laboratórios de Líticos, Arte Rupestre e Cerâmica do Instituto Terra e Memória que regularmente enriquecem o projecto ao sabor dos avanços de suas pesquisas e actividades.

Sintese adaptada de várias publicações de S. Cura, P. Cura e L. Oosterbeek

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Produção de fogo: choque entre duas matérias duras

As matérias-primas utilizadas foram, fungo prateleira, que se encontra geralmente em pinhais, mas muito abundante em bosques de árvores de folha caduca e húmidos, principalmente nos troncos das árvores mortas. Uma pequena lâmina em sílex, um fragmento de pirite, uma lasca em sílex com +- 7cm de comprimento e +-4cm de largura e uma acendalha de galhos de pequenos arbustos e raspas de medronheiro bem secas.


1. Acendalha de galhos e raspas de medronheiro

Começou-se por raspar o interior do fungo com a pequena lâmina de sílex, neste processo forma-se um novelo de finas fibras. Este foi acumulado até á proposta da quantidade achada como necessária, e depositado sobre uma superfície móvel.

2.Fungo depositado numa superfície móvel


Até aqui os gestos não necessitam de tanto esforço de coordenação.

Este poderá ser o gesto que exigirá uma certa coordenação, chocar a pirite na lasca de sílex e direccionar a poucas faísca, mas bastante intensas, para zona onde se encontra o fungo.

Aqui o processo pode levar tanto 2 Seg., como 5 mim., uma das faíscas terá que provavelmente ter o tamanho e intensidade suficientes e cair no local certo do novelo de fungo. Assim que acontece este entra rapidamente em combustão, proporcionando uma brasa consistente.

Dependendo da porção de fungo que se raspou o passo seguinte, colocação da brasa no interior da acendalha, pode ser feito com mais calma do que com a brasa formada na fricção de duas madeiras, já que o fungo proporciona uma brasa mais duradoura.


3. Fungo em combustão e a formar a brasa


O passo seguinte será exactamente igual ao da técnica descrita anteriormente.

E mais uma vez seguramente se fez fogo!

Ambas as técnicas não são fáceis, requerem que os materiais envolvidos sejam bem seleccionados e preparados.

Calma e concentração na hora de o juntar os materiais será necessário para atingir o objectivo pretendido, o de fazer fogo.

Em breve tentarei falar-vos de outros materiais para fazer fogo, um deles será uma técnica usada em regiões em que a erva de bambu é abundante.


Nota importante:

-Nunca experimentar estas técnicas sem estar acompanhado, duas ou mais pessoas serão melhor para resolver qualquer situação de perigo.

-Não fazer fogo em locais não autorizados, como reservas naturais ou reservas agrícolas, a não ser com uma devida e legal autorização.

-Não talhar materiais líticos sem que tenhamos o total controlo, de onde vão parar os restos e materiais talhados, com o intuito de não criar falsos sítios arqueológicos.


PEDRO CURA