S. Cura
quarta-feira, 24 de março de 2010
Arte Rupestre e Líticos
S. Cura
Projecto Andakatu: Educar no presente através do passado, preparando o futuro
É este o contexto da Educação Patrimonial do Museu, cuja face mais pública é o Projecto “Andakatu» que tem uma dimensão prática e uma vocação especial para a interacção com jovens e crianças. O “Andakatu” é um personagem que, por vezes vestido com «roupas» de caçador paleolítico ou agricultor neolítico (protagoniza e conduz os participantes em variados ateliers cujos conteúdos (discurso e materiais didácticos) têm por base a transformação da paisagem, a tecnologia, a arte rupestre, a transição da caça e recolecção para o agro-pastoralismo, transformações sociais, equilíbrio e sustentabilidade dos recursos ambientais.

As actividades são um prolongamento prático de um diálogo com os visitantes que se quer dinâmico e contextualizado nas interpretações do que poderá ter sido a vivência das comunidades humanas ao longo da pré-história, mas que também pretende ser um instrumento de educação cívica e ambiental.
Assim, através das acções educativas, de forma sucinta, pretendemos também transmitir que:
• A arqueologia pré-histórica compreende o comportamento humano do passado enquanto adaptação cultural que interage com o ambiente, sublinhando a diversidade de comportamentos e culturas na pré-história, mas nunca deixando de mencionar que na sua essência são comuns a toda a humanidade. Estas referências procuram uma melhor compreensão das diferenças sociais e culturais do mundo actual e estimulam nos jovens e crianças a noção de interculturalidade e aceitação do outro.
• A prática da arqueologia combina tecnologias altamente avançadas e complexas, mas permite ao mesmo tempo o envolvimento de pessoas sem treino especializado e que até certo ponto podem fazer parte do processo de construção do conhecimento. Estas são referências que procuram estimular e desenvolver nos jovens e crianças a educação científica não formal.
• A arqueologia não separa as ciências humanas, as ciências da terra e as ciências básicas e que por isso é desenvolvida sem segmentação do conhecimento. Assim procura-se despertar a consciência de que o conhecimento é construído através da combinação de várias disciplinas, métodos e diálogos.
• Quando estudamos pré-história percebemos que os seres humanos viveram durante milénios em harmonia e equilíbrio com o seu ambiente, ao contrário do que se passa actualmente. Os humanos pedem demais à natureza, sem consciência de que dela depende a nossa sobrevivência. Esta referência procura incutir a consciência e preocupação de que temos de explorar os recursos ambientais de forma sustentável.
• Igualmente o estudo do passado mostra-nos como as alterações climáticas sempre afectaram as comunidades humanas, no entanto aquelas que enfrentamos hoje, não são só naturais. São induzidas pela acção de homens e mulheres e têm consequências ainda mais catastróficas quando verificamos que desde a pré-história temos vindo a ocupar todas as regiões do planeta, incluindo aquelas mais vulneráveis a catástrofes ambientais. Assim despertamos nos jovens e crianças uma atenção mais crítica para o problema do aquecimento global.
Os ateliers do Andakatu têm como base a experiência directa, assumindo a experimentação tecnológica um papel fulcral para desenvolver uma percepção mais profunda e duradoura dos temas a transmitir Estas experiências, contudo, não são unicamente lúdicas, mas estruturadas em directa articulação com as experimentações desenvolvidas no âmbito dos programas de investigação sobre tecnologias pré-históricas.
Desta forma a educação patrimonial não separa a teoria da prática, ou a investigação da didáctica, que não é assim reduzida a uma popularização simplista dos resultados da investigação. Mais uma vez o objectivo é envolver os visitantes, jovens e adultos, sem formação específica em arqueologia, nos problemas da investigação científica. É por isso que não divulgamos só resultados finais, mas sobretudo as questões e os métodos à nossa disposição para lhes responder, assumindo que em arqueologia, como em qualquer outra disciplina, a comunicação com o público não é dissociável da promoção de um espírito crítico e reflexão interrogativa.

A inclusão de actividades de experimentação na apresentação didáctica da pré-história e os riscos de «banalização» dos conteúdos científicos que daí podem resultar têm sido apontados e discutidos. Na verdade, é precisamente o facto de o Projecto Andakatu ser desenvolvido em directa articulação com a pesquisa arqueológica que lhe garante uma correcta divulgação de conhecimento científico, mas sempre inteligível. Assim, a inclusão da experimentação na educação patrimonial não constitui um «perigo» para a pesquisa mas e é também a garantia da sua continuidade, já que o conhecimento científico dificilmente encontra um amplo sentido se for unicamente suportado e entendido pelos seus profissionais especializados.
A educação patrimonial decorre em vários espaços e é concretizada em diversas actividades. Para além da orientação personalizada das visitas nos espaços expositivos, que no caso de públicos mais jovens podem ser dinâmicas recorrendo a exercícios didácticos especificamente preparados para tal as acções educativas (ateliers e demonstrações) têm lugar no espaço exterior do Instituto Terra e Memória, mas também noutros locais. O trabalho educativo fora do espaço físico do Museu decorre, sobretudo, em escolas do ensino básico e 2º ciclo em Portugal. Em Sessões que «sintetizam» e demonstram em perspectiva a história da nossa «evolução com base no estudo das tecnologias pré-históricas.
Como meios de divulgação o projecto recorre à rubrica «Curiosidades do Andakatu», publicada no Boletim Municipal Horizonte Verdinho que é especialmente vocacionado para as crianças. É divulgado no site oficial do Museu (www.museumacao.pt.vu), mas também num blogue de apresentação de conteúdos e partilha de experiencias e finalmente um canal no Youtube (www.arqueologiaexperimental.blogspot.com e http://www.youtube.com/user/Andakatu)
Em balanço…
Podemos com alguma certeza afirmar que o projecto tem resultados positivos e que acompanha o crescimento do Museu de Mação. O desde 2007 que o projecto colabora com dezenas instituições (citamos só algumas):
• Escolas portuguesas de Ensino Básico e 2º Ciclo (mais de 30);
• Museus e Centros de interpretação: Museu de Antropologia e Arqueologia da Universidade de Cambridge (Reino Unido), Museu Tavares Proença Júnior, Museu Nacional de Arqueologia, Museu Agrícola dos Riachos, Centro de Interpretação de Arqueologia do Alto Ribatejo, Centro de Interpretação da Natureza de Fuentes de Oñoro (Espanha), Parque Natural da Serra d’Aire e Candeiros;
• Associações: Sociedade de Arqueologia Brasileira, International Summer School on European Prehistory (Sardenha,Itália), Cooperativa L’Orme Del Uomo (Valcamónica, Itália), Young Archaeologist Club (Reino Unido), Associação Portuguesa para o Desenvolvimento Regional
• Entidades comerciais privadas: Torreshoping, Electrosul (Brasil);
• Municípios: Ayuntamiento de Santiago de Alcântara (Espanha); Município de Mafra
Assim entre 2007 e 2009 o Projecto envolveu mais de 5000 crianças, jovens e adultos.
A educação patrimonial no Museu de Mação é bem sucedida, quer em termos de solicitação, quer em termos de eficácia na transmissão das mensagens e conteúdos devido ao cuidado posto na sua preparação, à permanente articulação entre o programa e as necessidades específicas dos seus utilizadores e ao facto de ter na equipa didáctica investigadores dos Laboratórios de Líticos, Arte Rupestre e Cerâmica do Instituto Terra e Memória que regularmente enriquecem o projecto ao sabor dos avanços de suas pesquisas e actividades.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Produção de fogo: choque entre duas matérias duras
As matérias-primas utilizadas foram, fungo prateleira, que se encontra geralmente em pinhais, mas muito abundante em bosques de árvores de folha caduca e húmidos, principalmente nos troncos das árvores mortas. Uma pequena lâmina em sílex, um fragmento de pirite, uma lasca em sílex com +- 7cm de comprimento e +-4cm de largura e uma acendalha de galhos de pequenos arbustos e raspas de medronheiro bem secas.
1. Acendalha de galhos e raspas de medronheiro
Começou-se por raspar o interior do fungo com a pequena lâmina de sílex, neste processo forma-se um novelo de finas fibras. Este foi acumulado até á proposta da quantidade achada como necessária, e depositado sobre uma superfície móvel.
2.Fungo depositado numa superfície móvel
Até aqui os gestos não necessitam de tanto esforço de coordenação.
Este poderá ser o gesto que exigirá uma certa coordenação, chocar a pirite na lasca de sílex e direccionar a poucas faísca, mas bastante intensas, para zona onde se encontra o fungo.
Aqui o processo pode levar tanto 2 Seg., como 5 mim., uma das faíscas terá que provavelmente ter o tamanho e intensidade suficientes e cair no local certo do novelo de fungo. Assim que acontece este entra rapidamente em combustão, proporcionando uma brasa consistente.
3. Fungo em combustão e a formar a brasa
O passo seguinte será exactamente igual ao da técnica descrita anteriormente.
E mais uma vez seguramente se fez fogo!
Ambas as técnicas não são fáceis, requerem que os materiais envolvidos sejam bem seleccionados e preparados.
Calma e concentração na hora de o juntar os materiais será necessário para atingir o objectivo pretendido, o de fazer fogo.
Em breve tentarei falar-vos de outros materiais para fazer fogo, um deles será uma técnica usada em regiões em que a erva de bambu é abundante.
Nota importante:
-Nunca experimentar estas técnicas sem estar acompanhado, duas ou mais pessoas serão melhor para resolver qualquer situação de perigo.
-Não fazer fogo em locais não autorizados, como reservas naturais ou reservas agrícolas, a não ser com uma devida e legal autorização.
-Não talhar materiais líticos sem que tenhamos o total controlo, de onde vão parar os restos e materiais talhados, com o intuito de não criar falsos sítios arqueológicos.
PEDRO CURA
sábado, 20 de fevereiro de 2010
E o que fazemos com os ossos?
Objectivos:
• Análises tafonómicas (ossos) e estudos funcionais (líticos);
• Tratamento dos restos para inclusão nas colecções de referência (ossos e líticos em quartzito);
• Remoção de tendões para actividades experimentais.
Por enquanto, apenas expomos os resultados das análises tafonómicas.
Suporte
Lasca em quartzito não retocada de delineação horizontal e sagital recta; a preensão foi manual e o ângulo da margem cortical activa foi de 5º (tempo total: 18 m).
Fig. 2 - Vista principal da lasca utilizada (largura máxima 4cm)
Fig. 3 - Pormenor do gume utilizado em todo o processo
Processo
Remoção de pele e desmembramento para aquisição dos tendões. Os vários contactos com as unidades anatómicas foram registados segundo o osso, tipo e direcção do movimento, localização (face e porção) e pressão exercida.
Fig. 4 e 5 -Remoção da pele
Fig. 7 - Aproveitamento dos tendões
Resultados:
As análises com uma lupa binocular (Bresser BioLux AL a 29x) evidenciaram:
• Tíbia (d): total de 4 grupos de marcas de corte paralelas oblíquas na porção 3 (face lateral e medial) de desmembramento e/ou remoção de tendões;
• Ulna (e): 1 marca longitudinal na face lateral da porção 3 perpendicular a 1 marca oblíqua na mesma área relacionada com remoção de pele;
• Ulna (d): 1 marca oblíqua na face lateral da porção 2 de remoção de pele;
• Fémur (e): 3 marcas oblíquas paralelas na face cranial da porção 1/2 relacionadas com o desmembramento;
• Fémur (d): 3 marcas oblíquas paralelas na face cranial da porção 2 e, 1 longitudinal na face caudal da porção 2 devido ao desmembramento;
• Coxal (e): grupo de marcas oblíquas paralelas na porção 1 e 3 relacionadas com o desmembramento;
• Coxal (d): grupo de marcas oblíquas paralelas na porção 4 e 1/2 devidas a actividades de desmembramento.
Fig. 8 - Registo dos contactos com osso
Fig. 9 - Azul: remoção de pele; Verde: desmembramento; Vermelho: Remoção de tendões; Cinzento: unidades anatómicas danificadas/porções não recuperadas.
Posteriormente, será postado o relatório referente ao tratamento e esqueletonização das diferentes unidades anatómicas para inclusão na colecção de referência.
NELSON ALMEIDA
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
Técnicas de Produção de Fogo 1: fricção entre duas madeiras

Na 1ª descrição o processo será a fricção entre duas madeiras distintas, a 2ª será o choque entre duas matérias duras.
As matérias-primas utilizadas são, um ramo de Aveleira (o mais recto possível), uma prancha de madeira retirada de uma raiz de trepadeira (Hera), estas duas espécies encontram-se disseminadas por vários pontos da Europa, e uma acendalha constituída por galhos de pequenos arbustos e raspas de medronheiro.






No local onde se concentra a fina serradura formar-se uma pequena brasa, confirmando assim que se liberta neste local uma fina coluna de fumo espesso e branco.
Essa pequena brasa depositada na folha é transportada para a acendalha. Nunca perdendo de vista a pequena brasa, soprasse calmamente e intensifica-se à medida que a combustão da acendalha vai alastrando até que surja a chama e seguramente se fez fogo.
Nota: este processo pode ser bastante eficaz, se introduzirmos dois novos instrumentos, um pequeno arco para girar a vara e uma peça de apoio para a mesma, colocada na extremidade oposta à que apoia na prancha. Mas também aqui, como podem ver no vídeo, a eficácia exige aprendizagem na utilização dos novos instrumentos.






