sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

INTRO - Indústrias líticas e comportamento humano pré-histórico no Alto Ribatejo: uma abordagem experimental

Quando o homem primitivo usou pela primeira vez pedras de sílex para qualquer propósito, antes ele tê-las-á fracturado acidentalmente e utilizado os fragmentos cortantes.
Charles Darwin, na Origem do Homem, 1871[1]

1 - Introdução

As indústrias líticas, maioritariamente produzidas explorando seixos fluviais de quartzito, representam grande parte dos achados arqueológicos no Alto Ribatejo[2], os ecofactos registam-se quase exclusivamente nos depósitos em gruta. Com efeito, a natureza dos depósitos fluviais desta região não permite a conservação de materiais orgânicos, tornando bastante difícil a obtenção de datações absolutas e/ou relativas, que não estejam relacionadas com a geomorfologia ou com a caracterização das indústrias líticas. No entanto, os sítios de ar livre desta região, desde o Paleolítico Inferior ao Neolítico, evidenciam ao nível da economia das matérias-primas o uso intenso e continuado do quartzito, cujos padrões de distribuição espacial e características tecno-morfológicas se têm relevado de problemática interpretação crono-cultural.
Assim, a construção de um quadro crono-estratigráfico para esta região, tem por base a elaboração de cartografia geomorfológica de pormenor e a triagem das indústrias de cronologia holocénica face àquelas pleistocénicas (ROSINA:2004). Esta triagem tem sido feita através do estudo geo-arqueológico de colecções de superfície, estudo tecno – tipológico de indústrias provenientes de contextos escavados, elaboração de cartografia temática com Sistemas de Informação Geográfica e datações absolutas por OSL e Termoluminiscência (PRUDÊNCIO et al: no prelo).
No que diz respeito à caracterização crono – cultural das indústrias líticas dos sítios de ar livre desta região, as investigações já efectuadas, nomeadamente no âmbito dos Projectos TEMPOAR I e II[3], indicam que dificilmente podemos classificar os sítios recorrendo só a critérios tecno-tipológicos. Com efeito, vemos que, quer em conjuntos paleolíticos, quer em conjuntos pós-paleolíticos, é comum a constante presença de dois sistemas de produção de artefactos idênticos, ambos aplicados no talhe de seixos fluviais de quartzito. Um tem como objectivo a produção de suportes (lascas com e sem retoque) enquanto que o outro consiste no talhe dos seixos com vista à sua utilização como utensílios (chopper e chopping-tools). Mesmo quando no âmbito dos referidos esquemas são aplicadas diferentes sequências de redução, os artefactos podem apresentar grandes semelhanças morfológicas no tempo e no espaço (GRIMALDI et al:1999). Em suma, uma das impressões que podemos deter numa visão geral das indústrias líticas do médio Tejo português é a sua aparente, quase monótona, homogeneidade. Esta decorre de similitudes entre os artefactos associados a vestígios de ocupações humanas atribuídas a contextos cronológicos muito distintos, desde o Pleistoceno ao Holoceno. Sugerindo assim que comunidades de caçadores-recolectores e agricultores teriam, nesta região, uma relação com o ambiente semelhante, sendo esta sugerida pela continuidade e recorrência de estratégias tecnológicas e de economia de matérias-primas. Estas hipóteses, porém, exigem um estudo aprofundado que permita destrinçar e melhor enquadrar estas similitudes. Na realidade as morfologias dos utensílios podem ser semelhantes mas a sua funcionalidade pode ser distinta, de acordo com a comunidade que os produziu, e no limite sequências de redução (manufactura) semelhantes podem ter objectivos técnicos distintos. Por outro lado, importa esclarecer, caracterizando e experimentando as matérias-primas, até que ponto a adopção de soluções semelhantes por parte de caçadores-recolectores e agricultores é consequência de um constrangimento e ou condicionante da gestão dos recursos disponíveis, ou se, por outro lado é uma opção adaptativa bem sucedida.
É neste quadro que está a ser desenvolvido, desde 2006, o Projecto Paisagens de Transição[4] que no âmbito do estudo das indústrias líticas pretende sistematizar os dados disponíveis relativos a indústrias líticas Paleolíticas e pós-Paleolíticas. Esta sistematização é feita em complementaridade com a caracterização das matérias-primas locais, em particular dos quartzitos, e com estudos tecnológicos e funcionais aprofundados, todos suportados pela aplicação de abordagens experimentais. Estas, pela sua natureza que adiante descrevemos, permitirão chegar a uma melhor compreensão do comportamento humano Pré-Histórico representado, ainda que parcialmente, nos artefactos líticos.
Estas linhas de pesquisa e as actividades que apresentamos neste trabalho têm sido desenvolvidas no Laboratório de Indústrias líticas do Instituto Terra e Memória – Centro de Estudos Superiores de Mação (protocolo entre o Instituto Politécnico de Tomar e Câmara Municipal de Mação) e no Centro de Interpretação de Arqueologia do Altor Ribatejo em Vila Nova da Barquinha, envolvendo investigadores do Projecto Paisagens de Transição e alunos do Mestrado em Arqueologia Pré-Histórica e Arte Rupestre (IPT/UTAD) e do Doutoramento em Quaternário, Materiais e Culturas (UTAD).
[1] When primeval man first used flint-stones for any purpose, he would have accidentally splintered them, and then would have used the sharp fragments.
Charles Darwin, in Descent of Man, 1871
[2] O Alto Ribatejo é a área em que se cruzam as três grandes unidades geo-morfológicas de Portugal (o Maciço Calcário Estremenho, o Maciço Hespérico e a Bacia Terciária do Tejo-Sado), sem fronteiras fixas, rigorosamente traçadas a partir de caracteres fisiográficos, mas estruturada pela hidrográfica formada pelos rios Nabão, Zêzere, Tejo, bordejados pelo Alviela, e pelo Ocreza.
[3] O projecto TEMPOAR (Territórios, Mobilidade e Povoamento do Alto Ribatejo) foi desenvolvido entre 1998 e 2006 sob a coordenação do Instituto Politécnico de Tomar. Entre outros objectivo o TEMPOAR visava estabelecer uma caracterização cronológica e tecno-tipológica das indústrias líticas, bem como uma melhor compreensão dos sítios arqueológicos em relação com os depósitos quaternários do Tejo e seus tributários.
[4] O projecto Paisagens de Transição – Povoamento, Tecnologia e Crono-Estratigrafia da transição para o agro-pastoralismo no Centro de Portugal (PTDC/HAH/71361/2006), aprovado e financiado pela FCT, tem como questão central compreender como eram socialmente estruturadas as primeiras paisagens agrícolas, por quem e quando.

Ano novo, informação nova

Inciamos o ano de 2009 com uma série de posts referentes a uma recente publicação do nosso grupo de pesquisa -Indústrias líticas e comportamento humano pré-histórico no Alto Ribatejo:Uma abordagem Experimental - Sara Cura, Luiz Oosterbeek, Stefano Grimaldi, Emannuela Crisitani, Pedro Cura, Ana Cunha e Jedson Cerezer, in Zahara - Centro de estudos de história local, ano 6, nº 12, Abrantes, pp. 71-80. Trata-se de um artigo que enuncia a metodologia das experimentações desenvolvidas por nós a partir das problemáticas arqueólogicas em torno das indústrias líticas em quartzito do Vale do Tejo. Como em tudo o que é investigação o que aqui vamos colocar é um work in progress para partilhar e criticar...desculpem aqueles que são da opinião que só se devem apresentar resultados finais.Nós entendemos que as metodologias e investigações só ganham se pelo caminho se forem (re) construindo, tanto os temas, quanto os investigadores.
S.Cura

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

II Congreso Internacional de Arqueología Experimental - as nossas participações

Começa depois de amanhã e nós vamos estar presentes nas duas versões: Arqueologia exerimental e didáctica!
Aqui ficam os nossos resumos:

Sesión: Arqueología Experimental aplicada a la didáctica y el Patrimonio
Histórico/Experimental Archaeology, Didactic and Historical Heritage
Andakatu Project: Prehistory didactics and experimentation
Sara Cura, Pedro Cura e Luiz Oosterbeek

The didactic programme of the Prehistoric art Museum of Mação is largely embodied of the conviction that knowledge is acquired through practical activities. Experimentation is the most efficient mode to establish a more tangible bridge between the present and the ways of living of prehistoric communities. Although being a small part of the official educational programmes, for many Portuguese children and adults prehistory is still attached to objects in museums’ exhibitions. These are too often deprived of dynamism, functional and social context.
In cooperation with the scientific research, namely the experimental studies developed in the research centre of Mação (ITM), the didactic activities try to develop the perception of the museum artefacts throughout the empirical understanding of its technological production and utilization.
To better achieve these goals, the Museum developed a unique didactic project in Portugal, where a character named Andakatu leads children, youngsters and adults into the path of human evolution. Through archaeological experimentation and involving the participants in learning by doing process, the project has been successfully engaging in archaeology and prehistory thousands of children in Portugal and abroad (United Kingdom, Brazil and Spain).
The activities with Andakatu lead children into several kinds of experimentations, for example:
· technological (knapping and polish of stones, clay preparation for vessels manufacture and firing),
· artistic (painting with mineral and organic pigments, carving with stone tools)
· and food preparation (using different kinds of hearths, ingredients and techniques).
Key words: didactic, prehistory, experimentation

Sesión: Arqueología Experimental y Traceología / Experimental Archaeology and
Traceology (27 noviembre/november)
Usewear traces or retouch?
Experiments to understand a Middle Pleistocene human behaviour in central Portugal.

Stefano Grimaldi, Emanuela Cristiani, Sara Cura e Luiz Oosterbeek

A first impression one may receive while overviewing the lithic assemblages of the middle Tagus valley (central Portugal) is their apparent - almost monotonous – homogeneity. Alleged similarities among artefacts associated to anthropogenic occupations stratigraphically attributed to very different chronological contexts (from middle Pleistocene to the late Holocene), required an in-depth study aiming at disentangling this similarities.
This lead to the launching of a 9 years project (1998-2007) named TEMPOAR (Territory, Mobility and Settlement), coordinated by the Instituto Politecnico de Tomar (Portugal), which aimed the establishment of a chronological and a techno-typological characterization of these lithic assemblages as well as an extended comprehension of the archaeological sites in relation with the Quaternary deposits of Middle Tagus and its tributaries. To achieve its goals, the TEMPOAR project set out the study of the surface lithic collections, the excavation of both Palaeolithic and Holocene sites and the production of thematic maps (elaborated with Geographical Information System) in order to provide a more rigorous articulation of archaeological sites and their respective geological deposits.
It’s within this framework that the Middle Pleistocene open air site of Ribeira Ponte da Pedra (RPP, also known as Ribeira da Atalaia) has been excavated since 1999. The site is the only middle Pleistocene site still under excavation in Portugal; former Pleistocene excavations were those at Fonte da Moita (Vila Nova da Barquinha, central Portugal), stratigraphically dated to the same age of RPP site, and Santa Cita (near Tomar, central Portugal) dated to at about 50 kyrs.
The lithic industry found in the Middle Pleistocene layers at RPP site is essentially characterized by three major groups: worked pebbles, non retouched blanks, and «retouched like» blanks; all of them have been knapped from quartzite pebbles, the only raw material available in the region.
“Retouched-like” blanks are mainly cortical or half cortical. Their percentage decreases along with the decrease of cortex presence, being quite rare among non cortical flakes. This seems to suggest that blanks showing modified edges were mainly needed in the cortical blanks category. However, the so far analysed implements present a quite marginal, coarse and atypical retouch, quite variable in its position and localisation and not resulting on «classic types» of formal tools.
A possible explanation for this behaviour could be due to blanks produced mostly to obtain functional edges to cut or scrape, but without the need of being retouched.
In this work, Authors will present the results of experimental and functional studies confirming that most of the edges showing an “atypical” retouch can be attributed to different types of edge-modifications resulting from subsistence activities, mainly corresponding to wood work.
Experiments also demonstrated the high degree of efficiency of quartzite blanks when they are being used for several subsistence activities such as chopping small trees, cutting or scraping bone and wood, butchering medium-small size animals.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Andakatu «sem fronteiras»!

Para nossa enorme satisfação podemos dizer que o Projecto Andakatu tem funcionado muito bem dentro e fora de Mação!
Pensamos que o bom desempenho deste projecto está sobretudo na forma como são preparadas e conduzidas as actividades de experimentação. O “Andakatu”, envolve os participantes em ateliers de experimentação (talhe, polimento, cerâmica, pintura, …), não de forma meramente lúdica, mas inscrevendo essas experimentações no âmbito dos programas de investigação sobre tecnologias pré-históricas que o Museu de Arte Pré-Histórica de Mação e o Instituto Politécnico de Tomar desenvolvem. Na verdade, todos os elementos da equipa do Andakatu são também investigadores em Pré-História (a equipa não se limita a funcionários do Museu, envolve os alunos de Mestrado e Doutoramento e investigadores residentes em Mação), não separando a sua a pesquisa da didáctica. Desta forma as actividades procuram sempre ser mais do que uma apresentação simplista dos resultados da investigação, envolvendo os participantes (quando jovens e adultos) sem formação específica em arqueologia, nos problemas da investigação científica. Já o enorme público infantil do Andakatu é estimulado de forma sensitiva, o discurso é adaptado a estas idades mas alicerçado na transmissão de conhecimentos de forma integrada, não separando as ciências das artes e sempre numa perspectiva de aprender fazendo.
As solicitações vêm de escolas por todo o país, e este ano está definitivamente consolidada a carreira internacional do homem pré-histórico do Vale do Ocreza.
As viagens além fronteiras, a convite de amigos como Hipolito Collado, Mila Simões de Abreu, Chris Chipendalle e Rossano Lopes Bastos, tiveram início no Verão de 2007. Nesse período fomos a Fuentes de Oñoro em Espanha e apresentámos o projecto no Congresso de Arqueologia Brasileira em Florianópolis, realizando também diversos ateliers nesta cidade. Já em Fevereiro de 2008 fomos até ao Reino Unido e, em Cambridge, integrámos os nossos ateliers nas actividades educativas do
Museu de Arqueologia e Antropologia da Universidade de Cambridge. Mais tarde fomos até à Sardenha no âmbito do PERFORMATIVE ARTS FESTIVAL promovido pelo Projecto Europeu Transformations.
Durante o verão deste ano nuestros hermanos convidaram-nos para vários ateliers desenvolvendo uma colaboração assídua que resultou na coordenação de uma acção de formação integrada no Taller de Empleo Prehistopolis do Ayuntamiento de Herrera de Alcantara, promovido pela Consejería de Igualdad y Empleo da Junta de Extremadura. Durante 8 dias o Pedro Cura transmitiu nossa experiência e pôs em prática com os formandos as actividades de experimentação didáctica que temos vindo a fazer.
Deixamos aqui algumas imagens do trabalho desenvolvido…

http://picasaweb.google.com/Andakatu/AndakatuNoTallerDeEmpleoPrehistopolisEmSantiagoDeAlcantara#

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Olhar para a simetria...

in A.J. Machin, R.T. Hosfield, S.J. Mithen:2007

Nestes dias numa leitura sobre experimentação no estudo de artefactos líticos levou-me até à questão da simetria dos bifaces. Os autores, que abaixo cito, procuraram através da experimentação verificar a existencia de uma relação entre a simetria dos bifaces e a sua eficácia enquanto utensílio utilizado em actividades de esquartejamento. Trabalho bem interessante, não só pelo tema, mas também por toda a metodologia aplicada e pela quantidade de dados processados (imaginem 30 veados em 3 dias, haja subsídio para a experimentação!). Ao que parece a relação não é directa, mas os autores invocam desadequações de ordem metodológica a corrigir em futuras experimentações. Só com mais trabalhos se poderá verificar se de facto a simetria é um factor pouco determinante para a suposta eficácia de um biface, pelo menos neste tipo de actividades. Forçosamente são precisos mais dados provenientes de outras experimentações, outras actividades, diferentes actividades conjugadas e com reavivamentos... Não me vou deter nesta discussão, quero somente deixar esta referência de Macnab (Pág. 674) sobre a nossa insistência pela observação, procura e (sobre?) valorização da simetria num seu trabalho também a propósito de bifaces:

In this sense the question asked by White is very germane. Why do we privilege symmetry and an aesthetically pleasing overall finish as criteria for nascentsymbolic capacities? In part the answer is one that we have already offered—one of historical tradition. These were the yardsticks of the culture historians, a window through which they felt they could view an incipient "humanness." I have some sympathy with White’s suggestion that the real signalling media would be successful blank production, simplicity and rapidity of production (while devoid of a symbolic component to the act of making), and perhaps other archaeologically invisible but socially very visible criteria such as physical strength, hunting prowess, physical appearance, sociality, cooperative behaviour, and perhaps assertiveness in cooperative behaviour.

John McNabb, Francesca Binyon, and Lee Hazelwood(2004) The Large Cutting Tools from the South African Acheulean and the Question of Social Traditions, in Current anthropology, Volume 45, Number 5, pp 653 - 657
A.J. Machin, R.T. Hosfield, S.J. Mithen (2007) Why are some handaxes symmetrical? Testing the influence of handaxe morphology on butchery effectiveness, in Journal of Archaeological Science 34 pp.883-893