terça-feira, 4 de novembro de 2008

Olhar para a simetria...

in A.J. Machin, R.T. Hosfield, S.J. Mithen:2007

Nestes dias numa leitura sobre experimentação no estudo de artefactos líticos levou-me até à questão da simetria dos bifaces. Os autores, que abaixo cito, procuraram através da experimentação verificar a existencia de uma relação entre a simetria dos bifaces e a sua eficácia enquanto utensílio utilizado em actividades de esquartejamento. Trabalho bem interessante, não só pelo tema, mas também por toda a metodologia aplicada e pela quantidade de dados processados (imaginem 30 veados em 3 dias, haja subsídio para a experimentação!). Ao que parece a relação não é directa, mas os autores invocam desadequações de ordem metodológica a corrigir em futuras experimentações. Só com mais trabalhos se poderá verificar se de facto a simetria é um factor pouco determinante para a suposta eficácia de um biface, pelo menos neste tipo de actividades. Forçosamente são precisos mais dados provenientes de outras experimentações, outras actividades, diferentes actividades conjugadas e com reavivamentos... Não me vou deter nesta discussão, quero somente deixar esta referência de Macnab (Pág. 674) sobre a nossa insistência pela observação, procura e (sobre?) valorização da simetria num seu trabalho também a propósito de bifaces:

In this sense the question asked by White is very germane. Why do we privilege symmetry and an aesthetically pleasing overall finish as criteria for nascentsymbolic capacities? In part the answer is one that we have already offered—one of historical tradition. These were the yardsticks of the culture historians, a window through which they felt they could view an incipient "humanness." I have some sympathy with White’s suggestion that the real signalling media would be successful blank production, simplicity and rapidity of production (while devoid of a symbolic component to the act of making), and perhaps other archaeologically invisible but socially very visible criteria such as physical strength, hunting prowess, physical appearance, sociality, cooperative behaviour, and perhaps assertiveness in cooperative behaviour.

John McNabb, Francesca Binyon, and Lee Hazelwood(2004) The Large Cutting Tools from the South African Acheulean and the Question of Social Traditions, in Current anthropology, Volume 45, Number 5, pp 653 - 657
A.J. Machin, R.T. Hosfield, S.J. Mithen (2007) Why are some handaxes symmetrical? Testing the influence of handaxe morphology on butchery effectiveness, in Journal of Archaeological Science 34 pp.883-893

terça-feira, 28 de outubro de 2008

O que é a eficácia de um utensílio?

(Lasca utilizada na experimentação dos vídeos deste post)

Uma das questões que frequentemente orienta as experimentações é procurar verificar a relação de eficácia entre o suporte utilizado (lasca, biface, ponta, raspador…) e acção desenvolvida (esquartejamento, raspagem de pele, corte de madeira…).
Mas o que é a eficácia?
É a velocidade com que se executa a acção? Atingir o objectivo em menos tempo possível?
É a qualidade do resultado? Se no primeiro caso podemos controlar o tempo em que a tarefa é concluída, com que critérios avaliamos se a mesma ficou melhor ou pior? Por exemplo, o que distingue um bom esquartejamento de um esquartejamento sofrível?
Ou, por último, é o bom funcionamento do suporte? Isto é, a relação peso morfologia e a facilidade de preensão, a eficiência e duração da margem activa…
Mais ideias para reflectir, em conjunto.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

II Congreso Internacional de Arqueología Experimental

Já está disponível no site do congresso o programa provisório.
Promete!
São quase 600km de Lisboa e 900km do Porto, mas as estradas até são boas...

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Jornal EuroREA 5/2008


Está disponível para encomendas o último número do Jornal EuroREA - Re)construction and Experiment in Archaeology

Contents

Lake-dwelling building techniques in prehistory: driving wooden piles into lacustrine sedimentsstudies/Francesco Menotti, Elena Pranckenaite (Italy / Lithuania)
Mit Schulklassen ins Museumeducation/Marlise Wunderli (Switzerland)

Early Medieval Walls and Roofs: a case study in interrogative excavationitems – ESF/Martin Millett (United Kingdom)

Application of a Set of Avian Bones for Reproduction of Prehistoric Geometric Designsitems/Eva Lamina (Russia / USA)

La construction d’un grenier surélevé d’apres les données archéologiques d’un habitat du haut Moyen Âgeitems/Aurélia Alligri (France)

Interaction between experimental archaeology and folklore - Latvian examplediscussion/Ieva Pigozne-Brinkmane (Latvia)

Linking Experimental Archaeology and Living History in the Heritage Industrydiscussion/Carolyn Forrest (Scotland)

Stone Age on Air: A successful „living science“ programme on German televisiondiscussion/Karola Müller (Germany)

The Algaba project in Ronda: an integrated approach to experimental archaeologyreports/Maria Sánchez Elena, Juan Terroba Valadez, Francisco Moreno Jiménez, David García González, Maria Fernández de Heredia Hernández, Francisca Perena Huertas, Patricia Ojeda Durán (Spain)

The history of Lofotr Viking museumreports/Julie Sæther (Norway)

Léonce Demarez – Une vie pour l’archéologiereports – INTERVIEW/Radomír Tichý, Hana Dohnálková (Czech Republic)

Workshops zur Experimentellen Archäo-Ethnografiereports/Antonio Affuso, Salvatore Bianco, Vito Antonio Baglivo, Annibale Formica, Marta Golin, Ada Preite (Italy)

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Reflexão (incompleta e aberta) sobre arqueologia experimental e líticos

A proposta é reflectir um pouco acerca da Arqueologia experimental enquanto abordagem no estudo dos artefactos líticos pré-históricos, todavia importa esclarecer aquilo que ela não é, já que é frequente a confusão entre experimentação, experiência e actividades didácticas de manufactura e utilização de utensílios em pedra, ou ainda mais de reconstruções de actividades e estruturas pré-históricas (REYNOLDS, P.:1999).
Por exemplo, o talhe experimental de um Biface é um exercício de reprodução onde são aplicados conceitos e técnicas que derivam da experimentação, mas é uma experiência individual. É então uma actividade de contacto entre o talhador, as matérias-primas e tecnologias empregues que, sendo fundamental para o processo de aprendizagem do talhe, pela sua singularidade não é Arqueologia Experimental. Por outro lado, talhar o mesmo Biface perante um grupo de não especialistas (por exemplo visitantes de um museu ou de um parque arqueológico), não só é uma reconstrução altamente educativa, como deve ser a comunicação acessível dos resultados de uma investigação pautada pela experimentação, mas não é em circunstância alguma Arqueologia Experimental. As experiências singulares e didácticas devem decorrer de um plano de investigação de problemáticas arqueológicas, cujo estudo passa por actividades de experimentação, mas são já efectuadas sem o método, a exaustividade de registo e confronto que estas implicam. Sobretudo não ocorrem como fase de teste, verificação e compreensão de uma hipótese ou modelo construído com base no estudo de materiais e contextos arqueológicos.
No decurso da investigação sobre um sítio arqueológicos, o entendimento dos seus processos de formação, das suas estruturas ou dos conjuntos artefactuais nele exumados pode levar à formulação de hipóteses de explicação e interpretação. Hipóteses essas que são susceptíveis de serem aferidas através da experimentação, fundamentando ou não a sua adequação e coerência explicativa. A fundamentação surge no confronto entre o decorrer das actividades experimentais, os seus resultados e os dados arqueológicos.
A arqueologia experimental é assim uma actividade constituída por um conjunto de fases analíticas que permitem reconstruir um artefacto ou fenómeno no seu devir, fundamentada na integração dos dados resultantes nos estudos de partida e de confronto, sendo que os seus dados devem ser submetidos ao mesmo processo analítico dos arqueológicos.
Em termos genéricos, uma experimentação científica pode ser definida como a execução concreta de uma sequência de acções parametrizadas, observáveis directa e indirectamente, e que podem ser replicadas monitorizando as variáveis de forma a testar e verificar uma dada hipótese ou para estabelecer relações de causa/efeito entre fenómenos. Mesmo para quem tem uma formação no campo das ciências sociais, como é o caso da maior parte dos arqueólogos, em termos metodológicos o essencial da experiência científica não é difícil de compreender, é sobretudo a sua execução que é delicada já que, na maior parte dos casos, exige uma objectividade, rigor e detalhe exaustivos. No entanto, sendo essa a base conceptual de um processo experimental a sua aplicação em Arqueologia, pela natureza dos dados e pelo processo de pesquisa de que o investigador experimentador é parte integrante e não isenta, é distinta.
Em arqueologia não podemos deixar de ser conscientes da impossibilidade de reproduzir artefactos e fenómenos exactamente como foram. Os dados arqueológicos sob os quais construímos hipótese e modelos foram sujeitos a processos de formação e alteração que não conseguimos identificar e especificar na sua totalidade. Inevitavelmente a experimentação efectuada com base nestes dados é feita em circunstâncias artificiais criadas indutivamente no presente e que são limitadas pelo difícil controlo de todas as variáveis que interferem no processo experimental. (LONGO:2001).
Outro factor não menos importante é a consciência de que as nossas motivações enquanto investigadores recorrendo à experimentação jamais serão equivalentes às motivações dos indivíduos pré-históricos no decorrer dos processos de fabricação e utilização dos artefactos. Mais, as actividades técnicas são também orientadas por factores psicomotores do indivíduo que as executa e esta constatação torna ainda mais evidente a impossibilidade de replicação exacta quando estudamos espécies que não a nossa, como o são o homo heidelbergensis ou o homo neanderthaliensis (BRACCO :1991).
No que diz respeito às indústrias líticas a experimentação é actualmente uma das abordagens que mais informação proporciona para a compreensão da variabilidade do comportamento humano através do estudo dos modos de produção e utilização dos seus artefactos em pedra que integram o nosso registo arqueológico. Permite-nos, entre outras possibilidades, melhor compreender as opções e constrangimentos na gestão das matérias-primas, a escolha e aplicação de sequências de redução e a relação destas com as actividades de subsistência desenvolvidas nos sítios arqueológicos. Dá-nos também a possibilidade de questionar os critérios convencionais da classificação tipológica (PERETTO:1994, p.151), isto é classificação sustentada na análise morfológica dos artefactos, que pode mascarar os processos técnicos e funcionais, que de forma mais aproximada definem a indústria lítica em análise e por inerência o comportamento humano a ela subjacente.
Todavia, a experimentação não surge neste processo de estudo de indústrias líticas somente como um exercício pautado por um rigoroso método objectivo e sistema documental estritamente descritivo que se aplica repetidamente (e em alguns casos acriticamente). Também é isso, mas não só, o que de forma alguma lhe retira uma suposta validade ou veracidade científica (GRIMALDI:2003).
O talhe experimental ou a utilização de suportes líticos são sobretudo uma ferramenta heurística suplementar, já que utilizada como um utensílio cognitivo e não como um modelo invariável, permite aceder a um método de leitura do material arqueológico diferente. A repetição não se faz só por uma exigência de metodológica e acumulação de dados de forma asséptica, mas também porque é provocada pelo confronto com os materiais arqueológicos que suscitam outras actividades experimentais (BOEDA: 1994, pág. 16).


Bibliografia
Boëda, E. (1994) - Le concept Levallois: variabilité des méthodes. CNRS.
Bracco, Jean-Pierre at al. (1991) - Gestes techniques et debitage experimental - elements de reflexion et potentialites de recherche dans l'etude du geste en prehistoire in Tecnologia y Cadenas Operativas, Treballs d'Arqueologia, 1, pp 163-172
GRIMALDI, S. (2003) - Riflessioni personali sullo studio sperimentale di industrie litiche del Paleolitico medio-inferiore in Archaeologie sperimentali : metodologie ed esperienze fra verifica, riproduzione, comunicazione e simulazione : atti del convegno : Comano Terme-Fiavè (Trento, Italy)
a cura di Paolo Bellintani e Luisa Moser, pp 203-208
LONGO, L. (2001) - L'Archeologia Sperimentale - proposta per una deontologia operativa, Comunicazione al III Convegno Nazionale di Archeologia Sperimentale, Villadose (Ro)
Pelegrin, J. (1991) - Aspects de démarche expérimentale en technologie lithique. In “25 Ans d’études technologiques en préhistoire”. APDCA, Juan-les-Pins
PERETTO, Carlo (1994) – Le industrie litiche del giacimento paleolitico di Isernia La Pineta, Cosmo Iannone Edittore, Isernia


S. Cura (excerto de um texto escrito para a revista de História Local Zahara, Abrantes)